É como se acordasse.
Como se uma cortina se abrisse. Como se a nevoa que cobria meus olhos tivesse
se dissipado. Por trás da nevoa brilha um sol infinito e, na água, seu reflexo
atinge uma gama de tonalidades que eu nem sabia existir. Sinto-me como se me
descobrisse daltônico na fase adulta. Pensava saber e sentir, conhecer a paleta
que a vida oferece. Estava certo de que em cinquenta tons de cinza se ia do ultravioleta
ao infravermelho.
Um toque, um sorriso,
um afago. Singularidades que quando combinadas em um só botão as capazes de
despertar a alma de um homem. E começou como que um formigamento que iniciou
pela boca é desceu por dentro do corpo até o estomago. Ali as borboletas se
tornaram pássaros verdes, que voando em círculos produziam um agitamento gelado
de emudecer a alma. O frio que iniciava na barriga tomava o corpo, mas na forma
de um calor confortável e aconchegante. Este antagonismo de sentidos produzia
uma sensação de plenitude antes desconhecida.
O corpo todo sorri:
os braços enroscados, sorriem. Os olhos levemente contraídos sorriem. Os pelos
ouriçados sorriem. E os lábios, maestros deste ato também sorriem.
Volto a contemplar as
cores novas, os tons mais violáceos e de forca mais brilhante. Um raio de sol
encontra meus olhos me banhado com uma sensação nova em uma experiência antiga.
Como se agora eu fosse digno de recebe-o por ter coração para senti-lo.
Puxo com forca o ar
para dentro de mim, e minhas narinas são tomadas por um cheiro liquido que
escorre por mim até que esteja impregnado em todas as paredes do meu ser. O
cheiro é doce e suave, mas mesmo assim de uma intensidade impar de forma a se
ter certeza de senti-lo e não apenas percebelo. É como se descobrisse o cheiro
do Sol. Um perfume que sempre esteve
ali, mas que eu jamais havia percebido por estar cego. Preocupado demais em
dominar a visão de seu contorno para me deixar ser invadido por ele.
Estou desperto. Olho
para trás e posso perceber que sonhava em preto e branco, estando a viver como
um cachorro. Lembrando de Orfeu vejo no que eu pensava ser cor: espectros, e
eles me abanam. Meus fantasmas quase que parecem sorrir como suas mãos acenando
em um badalo de despedida. Como eu, eles sabem que cruzei um arco sem volta, e
jamais estaremos juntos outra vez. Eu jamais
poderei voltar ao que antes chamei de mundo, ao que antes chamei de eu. É como
se houvesse novamente sido picado por uma cobra, e uma substancia doce e
revitalizante se espalhasse por minhas entranhas. Agora sigo a serpenter sem
certeza do destino, mas sabendo que caminho em direção ao sol,] que a cada
passo se revela mais colorido e perfumado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário