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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Um Novo Sol

É como se acordasse. Como se uma cortina se abrisse. Como se a nevoa que cobria meus olhos tivesse se dissipado. Por trás da nevoa brilha um sol infinito e, na água, seu reflexo atinge uma gama de tonalidades que eu nem sabia existir. Sinto-me como se me descobrisse daltônico na fase adulta. Pensava saber e sentir, conhecer a paleta que a vida oferece. Estava certo de que em cinquenta tons de cinza se ia do ultravioleta ao infravermelho.
Um toque, um sorriso, um afago. Singularidades que quando combinadas em um só botão as capazes de despertar a alma de um homem. E começou como que um formigamento que iniciou pela boca é desceu por dentro do corpo até o estomago. Ali as borboletas se tornaram pássaros verdes, que voando em círculos produziam um agitamento gelado de emudecer a alma. O frio que iniciava na barriga tomava o corpo, mas na forma de um calor confortável e aconchegante. Este antagonismo de sentidos produzia uma sensação de plenitude antes desconhecida.
O corpo todo sorri: os braços enroscados, sorriem. Os olhos levemente contraídos sorriem. Os pelos ouriçados sorriem. E os lábios, maestros deste ato também sorriem.
Volto a contemplar as cores novas, os tons mais violáceos e de forca mais brilhante. Um raio de sol encontra meus olhos me banhado com uma sensação nova em uma experiência antiga. Como se agora eu fosse digno de recebe-o por ter coração para senti-lo.
Puxo com forca o ar para dentro de mim, e minhas narinas são tomadas por um cheiro liquido que escorre por mim até que esteja impregnado em todas as paredes do meu ser. O cheiro é doce e suave, mas mesmo assim de uma intensidade impar de forma a se ter certeza de senti-lo e não apenas percebelo. É como se descobrisse o cheiro do Sol.  Um perfume que sempre esteve ali, mas que eu jamais havia percebido por estar cego. Preocupado demais em dominar a visão de seu contorno para me deixar ser invadido por ele.

Estou desperto. Olho para trás e posso perceber que sonhava em preto e branco, estando a viver como um cachorro. Lembrando de Orfeu vejo no que eu pensava ser cor: espectros, e eles me abanam. Meus fantasmas quase que parecem sorrir como suas mãos acenando em um badalo de despedida. Como eu, eles sabem que cruzei um arco sem volta, e jamais estaremos juntos outra vez.  Eu jamais poderei voltar ao que antes chamei de mundo, ao que antes chamei de eu. É como se houvesse novamente sido picado por uma cobra, e uma substancia doce e revitalizante se espalhasse por minhas entranhas. Agora sigo a serpenter sem certeza do destino, mas sabendo que caminho em direção ao sol,] que a cada passo se revela mais colorido e perfumado.

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