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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Te Sinto




Te Sinto
Mas é difícil compreender
Não sei bem o que sinto
Só sei que sinto


Tão recente
Mal te conheço
Não sei soletrar teu nome
Mas parece tão perene


Tão rápido
Tu a recém chegaste
Não temos nem uma folhinha
Mas parece tanto tempo


Tão forte
Tu invade o meu dia
Não sai do meu pensamento
Mas parece tão certo


A temperatura muda na tua presença
Tu me esquenta o coração
Me da um frio na barriga
Faz um corpo só estar em duas temperaturas

O ar fica mais leve contigo
Uma pressão alta que me aperta o peito
Uma pressão baixa que me inebria os pensamentos
Chego a sentir que meus pés mal tocam o chão

O luz do dia fica mais clara contigo
Meu mundo se ilumina
As cores ficam mais vibrantesChego a sentir meus olhos mais abertos

O cheiro do mundo fica mais doce contigo
O odor da tua pele penetra minhas narinas
Hipnotizando meu sentido
Chego a senti-lo impregnado no meu ser

O toque da tuas mãos arrepia minha peleUm leve choque cada vez que tu me encosta
Sinto-o Percorrer todo meu corpo
Até que sinto meu correção arrepiar

Tua visão me faz esquecer do mundo
Nada a tua volta existe
Sinto meus olhos colarem a ti
E nada mais me interessa ver

Quando teus lábios encontram os meus
E sinto tua língua roçar na minha
Quero invadir tua boca
Penetrar O teu mundo e o teu ser

Quando tua mão toca a minha
Quero te conduzir e ser conduzido
Entrelaçado a ti
E não mais soltar

Quando teu corpo toca o meu
Quero encostar em ti por inteiroE saber que cada parte tua é minhaAssim como o meu te pertence

E por fim sinto nossos corações entrelaçados
Se tocando e se acariciando
Fazendo com que pássaros e borboletasVoem de um estômago para o outro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Padaria





Eu estava caminhando sozinho
A vi
Sorri
Ela sorriu de volta

Perguntei a ela aonde ia
Ia comprar pão
Me pediu para ir junto
Por que não?!

Caminhamos, lado a lado
Ela não dizia nada
Nem eu
Estranhamente sentia-me à conversar calado

Às vezes desatávamos a falar
Às vezes voltávamos a ficar quietos
Ela me olhava e sorria
E eu sorria com os olhos

Chegamos à padaria
Eu ia entrando, mas ela fechou a porta
Desapontado corri para longe
Parei quando achei que não mais aguentaria

De longe a ouvi me chamar 
Será que nunca quis que eu fosse embora?
Mas eu estava muito cansado
Tentando ser cauteloso, voltei devagar

Quando cheguei  ela segurava a porta aberta
Escolhemos uma mesa para a gente
Lhe puxei uma cadeira
Sentamos frente a frente

Ela me disse seu nome
Eu lhe disse o meu
Ela me contou sua historia
Eu tentei lhe contar a minha

Ela falava e mais que ouvia, eu escutava
Eu tentava colocar meu coração nas palavras
Queria assim fazer com que ele a tocasse
Um toque gentil nas dela me encontrava

As palavras saiam de sua boca e vinham me beijar as orelhas
Devolvia-lhe o melhor de mim, acariciando-a à distancia
Nossas palavras flutuando no ar pareciam quase se tocar
E em um balé invisível suas historias e meu passado dançavam

Olhei em volta e 1 mês havia se passado
A padaria havia aberto e fechado
O mundo girava
E não havíamos notado

Não notamos a vida que passava
E os que passaram, levando consigo seus assuntos
Estávamos a sós
Estávamos juntos

Esquecemos de ir embora
Esquecemos do tempo
Esquecemos do mundo
E o mundo se esqueceu de nós

Meus pensamentos estavam enevoados
Seria o vinho?
Estaria eu tão cansado?
Ou seria realmente ela?

Notei que apesar de nu, eu ainda estava de sapatos
Mas eu não tinha nenhum lugar para ir
Sua mão segurava a minha
Mas vi que a outra segurava uma chave

Será que ela queria ir embora?!
Será que ela podia ficar?!
Será que pretendia me levar junto?
 Ou será que queria voltar para o que um dia chamou de casa?!

Mas, voltar para onde?!
Desde que ali entramos eu não tinha mais para onde ir
Pão, vinho e carne eu tinha naquela mesa
Como não temer aquele nervoso tilintar metálico

O barulho das chaves era ensurdecedor
Tampei minhas orelhas para não enlouquecer
Mas protegidas elas não poderiam ser tocadas
E a saudade do seu toque gentil me trazia de volta

Olhando para ela ouvi a música a tocar
Levantei e tomei-a pela mão
https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gifDançamos com os corpos colados
E nossos lábios se tocaram ao final da canção

3 dias, 3 anos ou apenas 3 segundos nossos corpos estiveram colados
Nunca saberei dizer por quanto tempo pertencemos ao mesmo abraço
A magnitude daquele ato estremeceu nossos corpos
E de uma vez só nossos olhos se abriram

Os olhos abertos se encontraram penetrantes
Por aqueles segundos eternos dissemos tudo que não coube em palavras
As luzes da padaria estavam acesas
E era hora de partir

Ela iria para casa
Eu voltaria a caminhar
Sabíamos que a padaria continuaria ali
E apenas de nós dependeria se voltaríamos

Prometemos voltar para o nosso mundo de nós
Chorei de medo de não voltar a vê-la
Sorri por tê-la visto por inteira

Rezei para voltar a tê-la

domingo, 9 de novembro de 2014

Meu Amigo


Ah mas que tristeza, meu amigo
Sentar ao teu lado e não ter nada o que dizer
Ouvir tuas palavras sem que elas me digam nada
E saber que as minhas soam para ti como devaneios

Que saudade eu tenho de ti, meu amigo
Do tempo que falávamos em código
Dos dias que discutíamos sobre o que faríamos
Pois certo como o sol se pôr seria que estaríamos juntos


Ah que saudades que eu sinto, meu amigo
Quando eu podia te dizer o que me ocorria
De quando não existiam meias palavras
E as vezes, mesmos antes de eu falar, tu ja sabia

O que será que aconteceu, meu amigo?
Será tu mudaste ou será que fui eu?!
Não te culpo e não mais me culpo
Seguimos o caminho dos nossos próprios pés

Sei que tu sofres como eu sofro, meu amigo
Mas não me culpes mais, meu amigo
Não escolhi ser o que sou, apenas aceitei
Me dói na carne ver em teu olhar o reflexo da decepção

Não rezo mais, meu amigo
Para que meus pés voltem a encontrar os teus
Tu me deixaste só, e quero muito te perdoar

E podermos,  de verdade,novamente conversar

sábado, 8 de novembro de 2014

O Pássaro Caído



Um dia estava caminhando pela rua quando ouvi o cantar de um pássaro. Ergui os olhos a procura do cantor mas não o vi. Ele silenciou e fiquei a esperar até que ouvi novamente seu canto. Fechei os olhos e percebi que a melodia era triste e quase sem força,
Segui olhando a minha volta a procurar da onde vinha o canto tão lindo, até que o encontrei. Era um pássaro caído, e pude vê-lo encolhido a meus pés.
Não sabia se devia tocá-lo ou não, afinal eu não entendia nada de pássaros, então apenas me agachei perto dele e fiquei a observá-lo. Ele me fitava com seus olhos negros e redondos, até que roçou a cabeça em mim, como a me convidar.
Com cuidado tomei-o nas mãos em concha, onde ele se aninhou. Seu corpo tremia assustado, mas sua temperatura era morna. Em poucos segundos seus olhos voltaram a me fitar como se quisesse me dizer alguma coisa.
Pedi ao pássaro que me contasse sua historia e ele prontamente iniciou um canto suave.
Sua melodia cantava a vida de um pássaro que havia viajado muito. Voava a muitos anos e já não podia se lembrar quando esta jornada havia começado. Ele tinha a lembrança de outros pássaros como ele voando a seu lado, mas isto fazia muito tempo.
Por mais que suas pelagens se assemelhassem suas asas batiam em ritmos diferentes e os ventos do mundo fizeram com que ele fosse voar sozinho.Sem saber para onde ir este pássaro solitário passou a voar o mundo procurando seu ninho perdido. Ele sabia que o ninho estava em algum lugar do mundo, apenas não conseguia se lembrar aonde.
Durante estes longos anos por algumas vezes ele pensou que o havia voltado para casa. Havia visto o ninho, exatamente como ele se lembrava. Quando isto acontecia ele parava de bater suas asas e deixava seu corpo planar no ar, sentindo o carinho do vento em suas asas. Suavemente pousava próxima a morada que tanto havia buscado sentido um arrepio de relaxamento percorrer todo seu pequeno corpo.
As vezes nem dava tempo de tocar o ninho e outro pássaro o enxotava, fazendo o voltar para o céu aberto. Outras vezes chegava a se aninhar, antes de ser atacado por um pássaro que não sabia da onde havia vindo. Uma vez ou outra chegou a ter a certeza que jamais sairia daquele ninho, até que sem explicação se encontrava-se novamente voando a procura de casa.
Perguntei porque ele estava machucado, porque eu o encontrei no chão, quando o lugar de um pássaro é no céu.
Ele me pediu calma e voltou a cantar.
Havia muito que ele não encontrava seu destino, e o cansaço de procurar era tão grande que ele não acreditava mais que pudesse existir descanso para suas asas. Sem esperanças ele havia decidido mergulhar na escuridão da noite e voou em direção a lua.
Mas mesmo no breu da noite existe a luz do sol a refletir, e seu brilho prateado banhou a copa de uma arvore. Ali ele pode ver outro pássaro a descansar. Acanhado posou ao seu lado e viu que ali não havia ninho, mas que a copa era confortável. Ouviu então do novo companheiro que se ficassem bem próximos seus corpos seriam um o ninho do outro, para aquecer e repousar, e assim estariam protegidos. Então ele finalmente descansou com os olhos fechados.
Interrompi-o novamente dizendo que este descanso não explicava nosso encontro.
Paciente ele novamente me pediu calma e retomou sua ária.
A noite era fria, mas seu corpo estava aquecido por seu pequeno coração a bater, então depois de muitos anos ele adormeceu, e se quer sabia por quanto tempo. O que ele sabia era como acordou: sentiu a sensação de que caia e abriu rapidamente os olhos. Viu o pássaro companheiro sorrir enquanto ele caia e entendeu o que se passava. O inverno havia acabado e agora o calor de seu corpo nada mais era que um estorvo para o antes fiel companheiro. Ele não sabia dizer se havia caído ou sido empurrado, mas de que importava?! Tudo que ele sentia era a dor de não ter o seu companheiro aparando sua queda.
Eu não agüentava aquela historia triste e pedi para ele que voasse, afinal pássaros não caem.
Desta vez ele não me interpelou, e apenas seguiu cantando sua historia.
Era como se a dor da traição houvesse sugado toda sua força. Suas asas não se moveram, e tudo que ele sentia era ser engolido pelo vácuo da queda.De repente, com um estampido seco seu corpo chocou-se com chão e ele pensou que fosse o fim. Suas asas se retorceram e seu corpo não se movia, então ainda acordado ele esperou que viessem buscá-lo.
Mas para sua surpresa eu apareci com meus passos largos. Ele sabia o que aquelas mãos grandes significavam e estava pronto para encarar seu destino. Mas para sua surpresa o golpe de misericórdia não veio, e sim um toque suave, e depois de muitos anos ele teve vontade de cantar. Entao ele silenciou, quase sorrindo.
Ao fim de sua historia eu tinha os olhos marejados e o coração aquecido. Ainda com ele em minhas mãos trouxe-o para junto de mim e o beijei. Olhando em seus olhos prometi entao que ele jamais voltaria a cair, que minhas maos estariam sempre ali a ampara-lo. Senti seu corpo todo relaxar porque finalmente ele havia encontrado em meu peito o ninho que tanto buscava.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Quer?





Pergunte apenas "quer?"
Simplesmente “quer”
Não importa aonde
Não importa quando
Importa apenas com quem

Se ela perguntar "o que" não complete tua frase, pois a resposta já está posta
Se ela disser "não" desista de tentar demovê-la tentando provar o teu valor
Se ela se sair com um "talvez" não a deixe explicar seus porquês, pois quem não tem certeza, nada pode ter
Se qualquer resposta contiver um "mas" esqueça tudo que o precedeu pois eram floreios a amenizar o que ela realmente queria dizer


Ah mas se ela disser que sim, tens uma mulher à frente
Se for um sim, apenas um sim, seguido de um silêncio, verás que os olhos dela sorriem sinceros
Um sim corajoso
Um sim de quem confia
Um sim de quem sabe que mergulhar no desconhecido vale a pena
Um sim de quem sabe que este desconhecido a lhe convidar vale a pena

Se for um sim, seguido de dúvidas, não te esqueças que o sim é a porteira que ela manteve aberta para que possas entrar e mostrar o que ofereces
Um sim de quem teme
Um sim de quem se respeita
Um sim acanhado, de quem quer seguir adiante mas que pede que segures a mão dela para que ela tenha coragem de ir
Ainda assim, um sim

Um convite de um homem a uma mulher é estender a mão
Convida-a a subir no tapete para voar pelos céus dos teus sonhos
Atraca tua gôndola bem próxima a margem para que ela possa com um simples passo flutuar contigo pelas águas da vida 

Deixe que entre de seu jeito, seja com um pé de cada vez ou com um salto decidido

De a ela tempo suficiente para que passe pela porta no seu ritmo
Mas se ela ficar postada não deixes a porta aberta para que ela possa entrar a hora que seu desejo assim for
Se ela não sabe o que quer
Se ela não sabe se te quer
Pergunte a ti e nao a ela "isto que tu quer"?

Quer?
Quero
Então vamos
Simples assim

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Uma Poesia de Mulher

(Imagem de autor desconhecido)
http://luardenoite1.blogspot.com.br/2013/03/a-mulher-inspiradorapoesia-dedicada.html

Poesia é uma manifestação de beleza retratada na forma de palavras. Muito mais que beleza, é tudo aquilo que sensibiliza, comove e desperta sentimentos.
Poesia é subjetividade. É não ter a necessidade definir, é se dar o prazer de não fechar nada.
Poesia é dizer sem falar. É dar mil voltas para andar apenas um passo. É não ter pressa em chegar a um entendimento.
Poesia é preferir imagens a adjetivos. É não se prender a descrição para cada subjetivo, entendendo que alguns sentimentos transcendem as propriedades físicas de cada palavra.
Poesia é construir toda uma imagem para explicar o que poderia ser dito em uma frase, mas que não caberia em um livro todo.
Poesia é saber que de forma pratica e objetiva algo pode ser explicado pelo que se é, mas só pela poesia pelo que se sente.
Poesia é importar para o mundo da palavra o que só existe no universo dos sentimentos. É se desprender das regras da escrita para fazer outro sentir uma gota do que o autor experienciou
E poesia é o que tu és.
Não existe como te descrever com adjetivos. Tua cor é um cheiro e teu perfume uma sensação. Teu sorriso tem som de pássaros, como se um par voasse em uma dança majestosa.
Em ti nada é definitivo. Tu jamais caberias em uma descrição. Como descrever o que vai alem das palavras, se não as distorcendo fazendo com que se combinem de uma forma sem sentido, para que possa explicar algo que as transcende?!
Talvez eu devesse te descrever com verbos, mas sua atividade inevitável não faria jus à calma de tua presença.
Talvez se eu tentasse te descrever somente com adjetivos pudesse fazer caber em uma frase um pedaço do que tu és. Mas adjetivos são genéricos e foram feitos para explicar qualquer um, então como poderiam eles descrever a ti que és única.
Única, que por definição é diferente de tudo. Nem melhor nem pior, apenas singular. E de tão singular não consigo combinar as palavras para chegar a uma descrição que te faça jus. Sem palavras evoco as imagens, ao lirismo e aos sentimentos. Talvez através deles eu possa traduzir em simples versos a sensação da tua presença



terça-feira, 28 de outubro de 2014

sábado, 25 de outubro de 2014

Meus Pássaros



Acho que já nasci diferente
Deve ter sido quando eu estava na barriga da minha mãe
Talvez ela tenha engolido um ovo sem perceber
Pode ter sido na comida
Pode ter sido abrindo a boca para falar
Provavelmente ela nem notou.
Claro que não estou falando de um ovo qualquer.
Nem sei bem de que ovo estou falando
Talvez seja um ovo cósmico

O que eu sei é que este ovo veio parar dentro de mim
Quando eu nasci, ou logo depois, o ovo já havia se tornado vida.
Do ovo saíram alguns passarinhos e passaram a viver comigo
Eu não sei do que eles se alimentavam ou o que faziam, mas eu podia sentir sua presença.

Comecei sentindo-os no meu estômago.
Era como se voassem em círculos o fazendo revirar.
O vento do bater de suas asas fazia gelar minha barriga
As vezes o vento era tão forte que me dava um frio na espinha
O voo circular me deixava com o estomago embrulhado
As vezes o voo levava a fome para longe
As vezes a ausência dele fazia da fome insaciável
Eu tentava explicar porque comia, mas ninguém entendia

Gostavam muito de fazer isto em minha cabeça também embaralhando meus pensamentos.
Neste emaranhado causado pelo bater das asas dos meus passarinhos desordenava meu pensar
Na verdade, o vento das asas dos pássaros rearranjava meus pensamentos em uma desordem cheia de sentido.
Eu tentava contar para todos o que eu estava pensando, mas eles não entendiam a ordem que me faltava.

Quando eles estavam cansados de voar, iam pousar em meu coração.
Se aninhavam sentados com as asas acomodadas ao longo do corpo.
Podia sentir o toque suave de sua penugem
O calor que produzia seu corpo esquentava meu coração
Era como se eles quisessem chocar de dentro dele uma nova vida.
Meu coração passou a existir em uma temperatura morna e agradável

Claro que as vezes eles se mexiam demais sacudindo o coração
As vezes eles levantavam rápido e com suas patas afiadas sangravam o pobre coração
O pior é quando eles acordavam e saiam a voar por dentro de mim
O coração sentia falta do calor de seu corpo e esfriava.
Outras vezes com tanto medo de esfriar ele esquentava demais.
As pessoas também não entendiam como meu coração podia funcionar tão diferente do delas.

E minhas mãos eram suas.
Eles se dividiam metade em cada braço
Eu relaxava por completo e deixava que eles me levassem.
Voavam em um só ritmo fazendo meus braços baterem como asas
E assim me faziam voar.
Das minhas mãos saiam as formas mais estranhas, e ninguém conseguia entender.

Um dia descobri que as pessoas não nascem com pássaros dentro delas.
Que eles não são parte do pacote
Que eles não são sangue, carne, osso e tripa
E fiquei com vergonha

Entendi que os pássaros não são funcionais
Que o canto dos pássaros não comunica nada
Que os pássaros passam pelo mundo sem deixar nada
Deixam apenas mais pássaros e ninhos vazios
Cagam o mundo e os chapéus apressados

Pedi que batessem na minha cabeça ate que os pássaros parassem de voar
Pedi que pisoteassem meu coração até que ali os pássaros não mais se aninhassem
Enchi meu estomago do liquido mais venenoso para afogar os malditos
Cerrei meus punhos para mostrar aos malditos que eu me podia comandar
Bradei a eles que me deixassem ser normal

As vezes eles passavam dias inteiros a voar
Se batiam contra minhas paredes como a querer rasgar minha pele
Imploravam com raiva pela janela que viam o mundo
Pela portinhola que os deixava livres para ir, mesmo que nunca fosse,
Pediam para serem pássaros

Depois se calavam por dias que pareciam semanas que se tornavam meses que pareciam anos
Seu silencio era ensurdecedor
E sua quietude me emudecia
Eu me enchia de uma esperança pobre
Ostentava em meu rosto o dos vencedores deste mundo de derrotados

Mas em alguns dias como se clamados pela lua eles acordavam
Cantavam sem parar
E giravam e giravam e giravam
Causando um terremoto no castelo de cartas que eu chamava de vida

Outras vezes achava que eles estavam mortos
Tentava espiar para dentro e ver se eles ainda ali estavam
Sempre achei que tinha o poder de acordá-los
Que sua vida tinha um botão ON/OFF
Sonhava em instalar um botão de volume, para controlar sua intensidade

Então eles sumiram
Dois séculos se passaram sem que fosse ouvido em minha terra o piar dos pássaros
Fui tomado  de um vazio como se meu interior fosse vácuo
Me tornei uma caixa vazia

Sentado  de cabeça baixa e deixei que tudo que me afligia aflorasse
Meus olhos  responderam  e deixei que o rio da minha dor corresse meu rosto
Abri a boca para sentir o gosto da minha alma
E senti o gosto do mar

Embasbacado abri a boca e então ouvi o canto mais lindo
Os pássaros todos juntos cantavam de dentro de mim a mais linda melodia
Juntos retomaram seu voo em um só movimento
Todos voavam em uma dança majestosa
Entendi que eles não me pertenciam, mas eu pertencia a eles

Com um punhal de pedra rasguei minha carne para que eles pudessem seguir o seu destino
Meu corpo não mais seria a sua gaiola
Eles seriam livres
E eu me libertava com eles

Descobri que meus pássaros eram 3
Saíram, batendo as asas com forca a gargalhar
Me despedi quando os vi voarem ate o céu e sumirem no sol
Sorri quando os vi voltarem na mesma velocidade

Traziam em suas penas o calor do sol para aquecer meu rosto molhado
Voaram a minha volta circulando cada membro de meu corpo
Quando haviam me abençoado por inteiro eles pararam
Sentaram em meus ombros e se botaram a cantar

Abri meus olhos para não mais fechar
A boca se abriu para se juntar ao canto dos pássaros
Eles levantaram voo e entraram pela minha garganta
Ficaram voando e cantando dentro de mim

A boca ficará aberta para sempre
Os olhos irão piscar, mas jamais se cerrar
As mãos são suas para escrever o balet de seus voos
A carne rasgada jamais irá cicatrizar
Uma porta para que eles possam ganhar o mundo
Uma porta para que eles possam voltar


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Para Fazer O Retrato De Um Pássaro



Este texto não é meu, mas queria que tivesse sido.

"Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro."


Jacques Prévert
(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)


Original
http://frit.lss.wisc.edu/fr203/pdf%20documents/(1%20intermede)%20Prevert.pdf

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Teu Adeus


Na ultima vez que nos falamos te despediste de mim
O problema não era comigo, mas contigo
Querias ficar sozinha para atravessar a tua tempestade
Um doce, disseste que eu era
Como eu podia ousar te contestar? Quizá confrontar?!
Como discordar se falávamos da tua verdade?!
Beijei teu rosto, peguei meu chapéu e antes de partir te entreguei uma flor.
Me beijaste as fontes e partiste.
Fiquei ali, parado e indo embora, até que me dei conta que mesmo sem ir eu já estava só.
Montei meu cavalo e de chapéu na mão parti em direção ao horizonte.
O sol que se punha me dava a certeza de que logo nasceria o outro dia.
Também servia para não esquecer que para quem dorme ao relento a noite seria fria
Espraiado na relva olhava as estrelas e via teus olhos.
Será que foste minha quando te tive em meus braços?
Será que algum dia fui um homem para ti, ou apenas um tropeiro ao qual recorreste?
Porque bateste a minha porta, moça? Achaste o que buscava?
Orgulhoso parto sem olhar para trás
Deixo migalhas pelo caminho, para que possas seguir meus passos e gritar meu nome.
Constantemente olho meu rastro a tua procura.
Mas que tipo de cavaleiro sou eu?
O que não desiste ou  o que não peleia?
Mas como posso eu, contestar tua soberana decisão?
Se não respeito tua palavra, como posso amar teus lábios?
Se me escorraças e sigo abanando o rabo, como posso pedir que não me trates como cusco?
Com medo de meu próprio desejo castigo o alazão para que me carregue para longe da tua porteira. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Meu Pequeno Príncipe





“Eis o meu segredo: é muito simples, Só se vê bem com o coração”
Mas eu demorei para conseguir ver. Meu olhar era enuviado e meu paladar não existia mais.
“Para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar”
Comecei a mudança pelos olhos, seguidos do pescoço, tronco e por fim os pés, que se botaram a andar em uma nova direção
“O ser humano descobre-se a si mesmo quando se defronta com os obstáculos”
E só eu sei, as esfinges que busquei e os demônios que encontrei.
“É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros“Mas hoje, com dor em meu coração vejo o quanto errei. Em minhas mãos calejadas sinto o sangue seco, de minhas próprias feridas.
“Mas eu era jovem demais para saber amá-la”
Então me perdoo por não entender a vida, na primeira rodada
“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”
Mas desaprender a cativar e ser cativado é estar morto
“Ei, trata de ser feliz vai”
Vou sim, viro me em direção ao sol e caminho novamente com um meio sorriso nos lábios
“Pode ir, tudo bem, mas se for voltar, não espere que eu seja a mesma pessoa”
Sei que uma vez nesta direção nem o medo pode me fazer voltar, pois meu coração ja despertou
“São os caminhos invisíveis do amor que libertam o homem”E se não estou livre, já arrasto minhas correntes como a tentar alçar voo.
“É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou”Não sei mais se o espinho segue cravado em minha carne, ou se a dor que sinto é de seu eco em minha alma.
“É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”
Mas a vida não pode ser amar as larvas as chamando de borboleta.
“Minha vida será como que cheia de sol“
Pois meu sol nasce dentro de mim e erradia pelos poros do meu ser
“Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros”
E teu caminhar será o preludio da alegria, anunciando que meu mundo se ilumina
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz"Pois tua presença existirá até quando não estiveres presente, através de teu cheiro impregnado em meu sorriso

“Então, eu me sinto feliz. E todas as estrelas riem docemente”

(citaçoes extraidas de O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Flor de Saturno

“ Sempre houvera no planeta do pequeno príncipe flores muito simples, ornadas de uma fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manha na relva, e já a tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido se sabe da onde, e o principezinho vigiaria de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou a preparar uma flor. O principezinho, que assistia a instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa “
(Trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry)



                                      


Saturno, o Senhor do tempo, demora 29,4 anos para completar sua volta em torno do Sol, e estar em relação a Terra exatamente na mesma posição. Quase 30 anos para que faça a exata sombra sobre mim que fizestes no dia que nasci.
E saturno completa sua primeira volta a me observar e na solenoide da vida me encontras no mesmo ponto mas em altura diferente. Tantas cicatrizes, caminhos percorridos, sorrisos, gargalhadas e devaneios até que voltes a me ver como me vistes uma vez.
A aproximação da posição exata do astro agita minha maré e meu mundo se revolta. O que antes era sol torna-se tormenta, sacudindo minhas águas com raiva.
Sozinho no convés de meu navio me ato a posição de timoneiro, com os retalhos das velas que um dia comandei. Ululo, desafiando o deus astro com meus dentes cerrados. A atitude guerreira esconde o coração de menino amedrontado, e por dentro choro.
O Tempo sem piedade me castiga, me lançando de meu mundo, me deixando abandonado a deriva e entendendo a realidade, de que, nunca fui senhor de meu destino.
Semi acordado flutuo como merda, com a certeza de que não há um porto seguro a me esperar ao final de minha jornada. Desesperado olho para o céu, a procurar o deus astro, rogando que me leve consigo. Mas meu momento com saturno já passou e tudo que vejo é caos. Meus olhos se fecham e me abandono.
Abro meus olhos quando meus pés tocam o chão e não há mais água a minha volta. Estou só e nu, com os pés plantados na areia de uma praia. Olho em volto e vejo que nada tenho de meu, alem das marcas da luta.
Sinto a luz do sol tocar minha pele e reajo como vampiro, sentindo ardência em minhas entranhas e minha pele a derreter. Ergo meus olhos para ver o Senhor do tempo pela ultima vez nos próximos 30 anos, e antes que ele desapareça vejo que de seu rastro cai um ponto luminoso.
Me ergo com o que me resta de força e corro para que aquele fagulha de luz encontre meu ser. Mas minhas pernas estão cansadas e em meu cambaleio quase embriagado fracasso na perseguição da luz, e vejo que o lampejo de vida acabou-se no chão
Extenuado em desespero me ajoelho, enfio meu rosto na mãe Terra, implorando que o chão me engula. Grito com a boca cheia de areia, um berro grotesco que ninguém pode ouvir. Levanto o olhar e vejo que onde o Tempo encontrou a Terra se apresenta um pequeno botão de flor, semeada por Chronos e nutrida por Gaia.
Tomo a flor em minhas mãos com cuidado, para lhe sentir por inteira. Seu cheiro é doce e seu toque aveludado. Sua temperatura é morna, e levo-a à meus lábios. Sinto-a como se fosse humana e que dela emana vida. Então me percebo ascendendo por dentro, e assim fazendo virar minha ampulheta para que se inciasse a nova espera por Saturno


"Amadurecendo no Retorno de Saturno"
http://www.personare.com.br/amadurecendo-no-retorno-de-saturno-m138


domingo, 12 de outubro de 2014

Dia da Criança ou Go Ted


Vendo o filme do ursinho mais falado do oscar eu assumi uma nova campanha: Quero evocar o estatuto da crianca! Quero erguer a bandeira contra os maus tratos a uma criança em especial, a que vive dentro de cada adulto. Cliche,ne?!É que as vezes eu esqueço!
Voces já tão vendo que eu gosto de falar de trabalho e do comportamento da nossa geração em relação a ele, então: tem aquele lance das mil facetas, e multitarefas (é gurias, homem tem também), a gente se mata trabalhando, a gente se puxa para ter uma casa legal, mas ta, para que tudo isto? Para curtir certo?! E voce já viu uma expressão mais feliz do que na cara de uma criança?!
Entao por isto eu defendo quão mais pesado for o dia, mas criança voce tem direito de ser no final. Porque a vida apronta para gente, a gente tropica, cai, se esborracha, tudo que nem criança. E a gente tira forca sei la da onde para levantar, dar uma lambida no joelho sangrando e segue o baile. Entao se a gente cai que nem criança, porque não se divertir que nem eles?
Geralmente a gente vira criança com quem a gente mais conhece, com quem a gente mais gosta e com aqueles que não temos defesas. No ultimo aniversario da minha ilustríssima sister e host desse blog @laurakaufmann e dei uma tortada na cara dela. Sim,senhor com toda a fome no mundo este empresário de quase 30 anos pegou uma fatia de torta e enfiou na cara da irma. E ela deu risada! 



 Ta não estou defendendo que todo mundo tenha seu Ted(https://www.youtube.com/watch?v=9fbo_pQvU7M), passe o dia chapado e aos 40 pense que tem 15. Tem que trabalhar, tem que produzir, tem que casar, tem que aceitar que a gente envelhece. Tem que ter dignidade para amar a idade que está e viver o que ela oferece em sua plenitude. Mas vai, 5 minutinhos de idiotice é tri bom!
Alguem contou estes dias, de um cara que passou em uma loja de fantasias, alugou a do Batman e invadiu a propira casa fantasiado correndo para surpreender o filho de 7 anos. Em uma terca feira, que ele tinha passado o dia tomando café em seu chique escritório, demitndo, contratando, e sendo homem. E dizem que ele se divertiu mais que o filho.
                                 
Um amigo meu postou isto no mural da namorada estes dias.Porra (pode dizer porra?!) quer coisa mais cúmplice que falar isto da patroa? E na criancice dos dois eu vejo uma maturidade e alegria, que fazem deles o casal mais feliz e adulto que eu conheço.
Já comecei a falar aqui (link) que nossa geracao esta cansada daquela vidinha de firmaàcasa à firma. A gente não quer so comida, a gente quer comida diversão e ballet. O ballet esta em um sorriso, em um uma cara ensopada de chicabom, em falar com uma voz idiota, em trepar em arvore, dar bombinha na piscina, pular no sofá, e por ai nos vamos. Esta geração já disse “não” para a o cubículo na firma e encheu suas agencias de bonequinhos, que para não parecer tão idiota eles chamam de action figures. Disse “sim” para trabalhar sem horário, para tirar a gravata, para trabalhar de casa e tudo isto sem deixar a peteca cair. E o pessoal da corporativa Microsoft que tem uma quadra de basquete para bater bola no meio do expediente, para deixa-los mais criativos? Não me venham dizer que não ficamos crianças dentro das 4 linhas!
Entao eu admito para vocês, eu sou um adulto que ama a idade que tem mas que tem uma nostálgica saudade das que passaram. Que passa  o dia de terno e que adora se atirar em uma piscina de bolinhas. Se voce concorda comigo, então “sigam-me os bons” se não concorda então “daaaaaaaaaa”.

(postado originalmente no blog Conversa Privada - https://www.facebook.com/ConversaPrivada?fref=ts)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Rio das Tuas Palavras


E tuas palavras fluíam como um rio.
O som da corrente é a musica que harmoniza o teu dizer.
O rio toca a musica do atrito da água com seus obstáculos, com o fundo que é o chão de sua vida, com as pedras que insistem em ficar no seu caminho e enquanto pode ela desvia, mas se precisar carrega com ela para poder passar.
As palavras nascem nas profundezas do teu ser, e vem brindar o mundo através da tua boca entreaberta. 
Teus lábios e tua língua se movem a ditar a intensidade da corrente.
Como as águas que descem da nascente elas se multiplicam em um crescimento eterno. 
A  fluidez com que encontram o mundo é natural e continua, como se não houvesse outra opção se não correrem ao seu destino.
Correm naturalmente sem força, inundam o ar a tua volta e me encontram.
Desembocam em meus ouvidos e por ali permeiam meu ser.
Sinto tuas palavras correndo dentro de mim, encontrando seu caminho.
Na natureza descendente, elas preenchem minha cabeça me inundando de pensamentos. 
Os olhos que triste por não estar em seu leito são respingados, abençoados assim com algumas gotas que não me atrevo a derramar.
A garganta é o duto natural da corrente das tuas palavras , que ao passar me fazem reagir e deixando um nó em seu caminho.
Quando encontram, meu peito, ele se estufa em um agitamento novo me fazendo arfar.
A temperatura natural da água corrente me gela a espinha, fazendo meu corpo estremecer.
Logo depois um frio na barriga gerando um calor natural no corpo todo.
O calor é do sangue que impulsionado pela água das tuas palavras, tambem corre encontrando seu destino.
Me sinto mergulhado em ti,  coberto pelas tuas palavras, inundado pelo teu ser.
Mais do que tudo flutuo, entendendo assim o que significa caminhar sobre as águas.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Yom Kipur – O Dia do Perdão(?)

(ainda não achei o autor,da pintura )

Perdão, será que tenho este brilho em meu coração? Acho que não.
Se perdoar é esquecer e olhar para quem intencionalmente magoou,pisoteou e rasgou: eu te digo, não consigo.
Não consigo esquecer o que tu fizestes comigo.
Não consigo entender porque o fizeste.
Não consigo aceitar que quando me atacava ferias a ti mesmo.
Era eu que sangrava. Era a minha pele que era rasgada pelas pedras que tu jogava.
No meu lombo descia a chibata da tua palavra. 
A poça de sangue esfriando no chão era do meu ser que se esvaia.
Não quero te perdoar porque tu não mereces o meu perdão.
Poderia te perdoar se achasse que tu te arrepende, se acreditasse nas desculpas floreadas e promessas que tu me apresentas.
Tuas explicações e promessas são palavras jogadas ao vento, sem valor de acontecimento.
Tu vives do medo, da dor e da mentira. Teu mundo é tão frio que tu arrastas o outro para ele para que entendam a tua ira.
Eu caminho na direção oposta a ti. Tu estas no meu passado e não no meu horizonte.
A tentação é grande e olho para trás procurando o calor do amor que senti.
Por um segundo petrifica meu peito e sinto gosto de sal. A lagrima solitária que corre meu rosto me devolve a vida e desvio o olhar.
Tu fica cada vez menor, e cada dia te esqueço mais.
Mas não te esqueço por completo, porque mesmo quando a ferida fechar para sempre terei a cicatriz no peito a me lembrar.
Perdão por não te perdoar.
Perdão por não conseguir te entender.
Perdão, mas não te perdoo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Amo Porque

Por Que Amo ?
Amo porque existo
Amo porque insisto
Amo porque não conheço outra forma de sentir, se não o amor

E não dá para ser diferente?
Tentei ser como esperavam que eu fosse
Deu tudo errado, fiquei parado
Virei perneta, sem conseguir amar nem não amar

E sempre dá certo?
Sempre dá certo, mesmo quando dá errado.
As vezes dá certo por 1 dia só.
Mas entre amar e ser amado, não queria estar do outro lado.

E dói?
O chão desaba
Mas o mundo não acaba
A gente levante e vai sofrer de novo

E vale a pena?
Não é uma escolha, mas uma sentença
Não escolho sentir, apenas sinto
Um pássaro é um pássaro, mesmo que atado a uma coleira de cachorro

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Farol


Nua


I´m Not There


Times Like These






Um Novo Sol

É como se acordasse. Como se uma cortina se abrisse. Como se a nevoa que cobria meus olhos tivesse se dissipado. Por trás da nevoa brilha um sol infinito e, na água, seu reflexo atinge uma gama de tonalidades que eu nem sabia existir. Sinto-me como se me descobrisse daltônico na fase adulta. Pensava saber e sentir, conhecer a paleta que a vida oferece. Estava certo de que em cinquenta tons de cinza se ia do ultravioleta ao infravermelho.
Um toque, um sorriso, um afago. Singularidades que quando combinadas em um só botão as capazes de despertar a alma de um homem. E começou como que um formigamento que iniciou pela boca é desceu por dentro do corpo até o estomago. Ali as borboletas se tornaram pássaros verdes, que voando em círculos produziam um agitamento gelado de emudecer a alma. O frio que iniciava na barriga tomava o corpo, mas na forma de um calor confortável e aconchegante. Este antagonismo de sentidos produzia uma sensação de plenitude antes desconhecida.
O corpo todo sorri: os braços enroscados, sorriem. Os olhos levemente contraídos sorriem. Os pelos ouriçados sorriem. E os lábios, maestros deste ato também sorriem.
Volto a contemplar as cores novas, os tons mais violáceos e de forca mais brilhante. Um raio de sol encontra meus olhos me banhado com uma sensação nova em uma experiência antiga. Como se agora eu fosse digno de recebe-o por ter coração para senti-lo.
Puxo com forca o ar para dentro de mim, e minhas narinas são tomadas por um cheiro liquido que escorre por mim até que esteja impregnado em todas as paredes do meu ser. O cheiro é doce e suave, mas mesmo assim de uma intensidade impar de forma a se ter certeza de senti-lo e não apenas percebelo. É como se descobrisse o cheiro do Sol.  Um perfume que sempre esteve ali, mas que eu jamais havia percebido por estar cego. Preocupado demais em dominar a visão de seu contorno para me deixar ser invadido por ele.

Estou desperto. Olho para trás e posso perceber que sonhava em preto e branco, estando a viver como um cachorro. Lembrando de Orfeu vejo no que eu pensava ser cor: espectros, e eles me abanam. Meus fantasmas quase que parecem sorrir como suas mãos acenando em um badalo de despedida. Como eu, eles sabem que cruzei um arco sem volta, e jamais estaremos juntos outra vez.  Eu jamais poderei voltar ao que antes chamei de mundo, ao que antes chamei de eu. É como se houvesse novamente sido picado por uma cobra, e uma substancia doce e revitalizante se espalhasse por minhas entranhas. Agora sigo a serpenter sem certeza do destino, mas sabendo que caminho em direção ao sol,] que a cada passo se revela mais colorido e perfumado.