Hoje vieram recolher teu corpo que já cheirava na sala. Você
estava penteada e maquiada a lhes esperar, com a comida a esfriar a sua frente.
Esqueceram de me avisar que estavas morta, ou me esqueci de ouvir.
Durante estes dias que te achei mais calada e fria, me
perguntei se não poderia ter feito mais para te salvar. Se o que te levou foi
doença, assassinato ou suicídio.
Me lembro de quando começaste a morrer. Foi pouco a pouco,
como se teu sangue estivesse a pingar em nosso tapete branco. Primeiro olhei
para outro lado, depois elogiei tua palidez.
Enquanto eles carregavam teu corpo para fora, eu me sentia
um assassino. Sentia tua morte em minhas costas a me esmagar com o peso da
solidão, e quis te trazer de volta.
Pensei que tua doença poderia ter cura. Que poderia haver
médicos que pudessem ter te salvo para mim. Será que eu não poderia ter te
colocado sobre os ombros, enquanto havia tempo, e procurado pela cura? Mas lembrei
de que não tivemos tempo o suficiente.
Pensei que poderia ter de salvado pela fé. Buscado os mais
poderosos xamãs, exorcistas e curandeiros para que curassem tua alma e me
devolvessem teu espírito. Mas lembrei de que eu não tinha a tua fé.
Pensei que eu poderia ter te contaminado. Que através de
nosso amor meu ser podre tivesse penetrado o teu, e te preenchido com a
podridão de meu veneno. Mas me lembrei de que não sofríamos dos mesmos
sintomas.
Pensei que pudesse ser assassinato. Pude ver o corpulento
assassino na calada da noite a te espreitar. Puder ver ele te atacar, enquanto
eu não estava lá para te defender. Como teu homem eu tinha de te proteger. Mas
me lembrei de que só deixei o teu lado quando tu pediste.
Pensei no impensável suicídio. Pensei que eu pudesse ter
deixado teu mundo tão escuro, que tu tenhas desejado troca-lo pelo breu eterno.
Eu teria de ter feito da tua vida dia, e te salvo da noite. Mas lembrei de que eu
tinha os braços queimados de carregar o sol para ti.
Tentando entender a tua morte, eu abraço a minha. Sinto meu
peito molhado a escorrer. Olho para baixo me vejo empapado de sangue. Há um
punhal cravado em meu peito. A máo que segura a lamina não é de outro, mas a
minha e a tua entrelaçadas.
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