Um homem bate a porta onde responde uma mulher:
Ela – Quem é?
Ele – Sou eu.
Ela – Eu quem?
Ele – Nao sei
Ela – Seu eu nao sei quem voce é, porque eu abriria a porta
Ele – Voce esta sozinha?
Ela – Sim, não há
ninguem comigo
Ele – Entao abra a porta para mim, eu realmente quero entrar
Grita uma vizinha - Não abra para a porta, não para ele.
Ela – A porta sempre esteve aberta
Com cuidado ele testa a maçaneta e realmente esta aberta,
ele deixa a porta encostada, sem abri-la
Ela – A porta nunca esteve fechada – disse ela novamente
Fitando a porta ele pensou que talvez nunca tivesse tentando
abri-la. Ele que durante tanto tempo sonhou transpor somente esta porta. Tinha
certeza de lembrar dela trancada. Devia ser sua visão que andava cada vez mais
embaralhada, ou sua memória que parecia não ter o que guardar. Olhou com mais
foco para a porta que ele havia deixado entreaberta, como a se certificar de
que tinha sido real. Como uma coragem que ele não sabia de onde tirou
escancarou a porta e invadiu o aposento correndo.
Ela não via nada, e muito menos entendia. O estranho que ela
deixou entrar em seu mundo era apenas luz. Luz que ele fazia questão de emanar,
cegando-a os olhos a ponto de ela não poder vê-lo.
Ela – Nao me cegue, quero ver-te
Ele – Cega-la ? estas louca?
Ela – Fale comigo, quero escuta-lo não só ouvilo.
Ele – Limpe suas orelhas pois estou a falar.
Ele então pode vê-a: envergonhado e ate assustado ele cobriu
os próprios olhos e estendeu a ela um manto.
Ela – Para que isto? Não entendo.
Ele – Estas nua, eu te vejo.
Ela – Eu nasci assim, disse ela com naturalidade.
Ela precipitou-se a porta
Ele – Aonde vais?
Ela – Fechar a porta para nos proteger.
Ele – Nao feche tenho medo.
Ela – Se voce quer ir embora, pode ir.
Ele – Eu quero muito ficar, mas deixe a porta aberta.
Ela – Por favor, preciso ve-lo. Se revele a mim.
Ele – Se não me vês, es cega.
Mas ele sabia que se escondia naquela escuridão disfarçada
de luz. Ele fechou os olhos e usou toda forca do seu ser para se mostrar, lutou
contra tudo que lhe segurava, demolindo as barreiras que havia construído com
tanto suor e lagrima. Depois de segundos de eternidade ele abriu os olhos para
que pudesse ser visto.
Em vez de um sorriso ele fitou a escuridão do aposento
vazio: ela não estava mais ali. Ele se olhou e viu que como ela, também estava
nu. Procurou-a desesperado para em fim mostrar sua nudez, provar que eram iguais.
Mas na eternidade que ele tomou para se revelar, ela saiu
pela mesma porta que ele havia implorado para manter aberta para nunca mais
voltar.
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