Em uma sala de espera, estou só. Alem de mim, apenas duas
cadeiras, duas janelas e uma enorme porta cerrada. Sentado espero. Visto minha
melhor roupa, pronto para a grande ocasião. Desta sala sairei para um dos
momentos da vida: casamento ou velório.
Do outro lado da enorme porta onde a sala termina se decide
meu futuro. Um grande julgamento ocorreu, defesa e promotoria se digladiaram em
silencio e agora está terminado. Usei de todos os artifícios que o direito me
permitia. Em meu argumento final carreguei na oratória todos os elementos que
acreditava ter a meu favor. Não guardei nada na manga, nada para depois. Não há
depois. Completamente nú, deixei meu coração sobre a mesa e minha vida em suas mãos.
Agora de portas fechadas a decisão é confabulada. Não se
ouve nada, o silencio é doloroso. O silencio é enlouquecedor. Ouço gritos em
silencio. O silencio é pai da especulação, e demônios invadem minha mente.
Posso ver como em filmes o desenrolar dos acontecimentos frente aos diversos
veredictos. Como nitidez ouço chamarem meu nome, e sobressalto na cadeira, mas ninguém
está lá.
O piso de pedra da sala emana um frio que se apoderou de
minha espinha. Toco meus braços e sinto-os gelar: me pergunto se é ansiedade ou
morte?
Como a duvidar que ainda estou vivo corro os olhos ás
janelas. As janelas colocadas lado a lado estampam quadros opostos. Em uma a tormenta
impera, enquanto na outra o sol brilha soberano. Meu desespero faz com que elas
variem de tamanho, alternando-se no compassar de minha esperança.
As janelas não têm grades e penso em fugir. Quero correr
para onde não haja morte e que em um banho eu posso lavar a angustia. Mas
minhas pernas não se movem, pois a chance de primavera me faz encarar o risco
do inverno eterno. Sentado a mercê de meus juízes eu espero.
O medo da espera só é superado pelo temor de que ela acabe.
A espera só termina em um veredicto. Não existe apelação ou condicional, existe
apenas a sentença.
Quando as portas se abrirem não precisarei de palavras, pois
os olhos do mensageiro me dirão o meu destino. Temo, pois conheço os lábios do
mensageiro. De seus arqueados lábios sairão as palavras que resumirão a
existência do meu ser por daqui em diante. A temperatura que acompanhar seu
corpo me dirá o que será de mim, o frio da morte ou o morno da ternura. Por
minhas narinas será dada a noticia, seja pelo enxofre ou jasmim.
O mensageiro é vitima, júri e carrasco deste processo sem
vitima e réu. Com ele jaz a decisão, e também ele será o responsável por levar
a cabo a sentença.
Sua mão encontra-se sobre minha nuca, com minha cabeça baixa
a fitar o chão. Sinto o ar se mover e sei que sua mão esta em movimento. Enquanto
ela baixa rezo para que me encontre esplanada em benção, ao revez da gelada
lamina de seu machado.
Eu espero, pois meu destino esta em suas mãos. Espero, pois
não me existe vida antes deste veredicto.
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