Eu sou uma pedra. Uma destas pedras ordinarias, cinzentas
que voce já viu tantas que nem percebe mais. Quem sabe ate chutou algumas
delas. Tenho um tamanho médio, um pouco maior que um punho cerrado. Meu formato
não poderia ser mais comum, arrendondado pela ação do tempo e a erosão. Há
muito estou no mesmo lugar, talvez tenha estado sempre ali, no centro de um
pequeno córrego, que me banha por ambos os lados e por pouco não me submerge.
Ela é uma corrente, a força que movimenta as águas. Ela é a
senhora do movimento que engloba minha existência neste momento. Ela é forte,
mais intensa do que as forcas que conheci antes. Sua pressão não é agressiva e
em sobressaltos, mas sutil e continua como de quem sabe para onde vai.
O movimento de suas águas produz o mais belo dos sons. Como
se uma orquestra de gotas a chacoalhar
pudesse cantar como pássaros, uma musica suave e delicada. Como se
pássaros e sereias do fundo das águas brindassem sua existência.
Não sei de onde ela vem, meus olhos não alcançam sua
nascente ou desvios em seu curso. Tambem não sei quando chegou, pois quando
percebi sua presença já envolvia meu ser por completo, como se ela sempre
estivesse estado ali.
Quando percebi sua presença olhei para mim mesmo, e vi que
estava diferente. Seu movimento já começava a alterar a forma do meu ser. Alem
do meu ser sua presença alterava o meu universo, e pude perceber que a água
estava prestes a me deixar totalmente submerso. Tive de lutar, agarrado nas
raízes das plantas que me foram eternas protetoras.
Ali eu já sabia que a não teria forcas para contar a
magnitude desta corrente, e que minha luta seria em vão. Contra minha vontade
meu corpo já se inclinava como a obedecer a ordem que vinha através das águas.
A forca desta corrente foi mais forte do que eu conhecia. Pouco-a-pouco ela ia
me tirando da posição cômoda onde eu repousava por toda a eternidade de minha
memória, mudando minha relação com meu mundo e como a tentar me tirar do meu
chão.
Ainda luto bravamente com medo do desconhecido, tentando não
autorizar que esta forca agradável e desconhecida me atire no desconhecido.
Tenho a ultima aresta do meu ser tocando o chão, e me agarro a ele. O cântico
do fluir das águas fica mais alto, ainda tocando o chão sou tomado de uma
sensação de medo e liberdade, de quem esta prester a mergulhar no infinito.
Amo a sensação de estar envolvido por ela. Todas as partes
do meu ser são tocadas por ela, e seu toque gelado é a definição do
prazer. As águas geladas relam em minha
pele calejada, e este atrito de corpos produz um quase calor que ilumina as
profundezas e esquenta meu ser inanimado. Como se nesse calor ela reconhecesse
que ao me abraçar todo meu corpo, estou dentro dela por inteiro.
Tenho medo. Aonde me levará esta corrente? Meus movimentos e
destino já não me pertencem, mas a soberana que comanda as águas. A corrente
não muda de fluxo e jamais poderei voltar ao meu local de origem. Ao aceitar
ser arrastado, entregarei me em suas mãos. Como poderia romper com as plantas e
raízes que me protegeram sempre?! Trocar meu silencio por navegar nestas águas
desconhecidas de tamanha forca? Como posso me atirar nestes braços que me puxavam
sem ao menos perguntar seu eu queria seguir o seu caminho. Como posso estar em
paz, sendo carregado por uma correnteza, que esta fadada ao destino de todas
elas: terminar no infinito mar.
Como poderia eu, ordinária rocha desafiar o oceano?
Pensei em represa-la, atirar me contra irmãs rochas para que
com elas pudéssemos dominar a ânsia de seus sentimentos. Seu eu a tivesse sob controle
poderia viver a eternidade imerso em suas águas, então calmas e acolhedoras.
Mas quanta petulância desta ordinária rocha pensar poder conter uma forca como
esta. As lendas falam em rochas tão ousadas, e existem apenas dois destinos: ou
matam a correnteza amada por lhe tirar o seu brilho, ou são esmirilhadas e
espelidas por ousar tentar conter algo indomável. Um não pode fugir de sua
natureza.
Eu que era feliz na calmaria de minhas águas agora sei que
não posso voltar. As sensações que conheci jamais me deixarão sorrir sem elas. “Afortunados
são os ignorantes” eu gostaria de citar, mas seria hipocrisia dizer que não
gostaria de ter conhecido o mais belo do belo.
Entao em um lampejo de coragem, fujo de minha natureza de
rocha e facilitado pelo impuxo de meu desejo exerço um movimento voluntario.Me
desprendo do meu chão eterno e flutuou em suas águas, como a voar carregado por
borboletas e pássaros verdes. A sensação é indescritível, e o cântico fica mais
audível conforme tomo velocidade. Me sinto parte dos movimentos dela, como se
fosse parte do ser que me carrega e me envolve.
La em baixo posso ver minhas irmãs calcarias a me fitar como
o horror e o desprezo reservado aos loucos. Lhes devolvo o sorriso dos
transgressores, cronopios por essência.
Meu sorriso então torno a minha senhora corrente, e ela
canta de volta especialmente para mim.
Em suas águas vejo o reflexo de minha alegria, mas tambem
vejo medo. Temo que minha amada siga seu destino, encontrando o senhor mar, ou
mudando seu rumo. Fadando esta relez rocha a viver so na escura e gélida
profundeza do oceano.
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