No futebol clássico como na vida, as pessoas vem em pares.
Um precisa do outro, um tem seu seu espelho e seu par.
Nao poderiamos ser goleiros. O goleiro é solitário, ninguem
lhe entende. Sofre sozinho e leva culpa sozinho. Quando os outros comemoram ele
esta sozinho. Goleiros vivem nos extremos, heróis ou vilões em questão de
segundos. Gelados ou elétricos, loucos em sua essência. E sós, extremamente
sós.
Jogam apenas 11, e um desta dupla será banido. Seguirao
sempre juntos, ambos indispensáveis, mas goleiro pode jogar apenas um. O outro
será sempre suplente. Sua alegria so pode existir na ausência do outro. Seu
companheiro será sempre seu maior rival. Seu melhor amigo será sempre aquele
que mesmo com remorso irá se alegrar de sua desgracá. Não poderíamos ser
goleiros.
Não poderíamos ser zagueiros. Os zagueiros vivem apenas para
destruir. São duros e vivem do enfrentamento. Seu único papel no jogo é evitar
a criação, destruir a arte, blindar o universo do gozo do gol. Os xerifes não
podem sorrir e se alimentam do medo.
Apesar de existirem
em duplas os zagueiros não tem o nosso espírito. Uma dupla de zagueiros
fala o tempo todo. Precisam gritar para sincronizar seus movimentos. Sempre
desesperados para evitar o pior eles se chocam constantemente. Grandes e
atrabalhoados a dupla muitas vezes parece não falar a mesma língua. Dois
destruidores jamais poderiam construir algo novo. Não poderíamos ser zagueiros.
Não poderíamos ser laterais. Os laterais não tem alma. Seu universo é a
margem do mundo, vivendo pelas beiradas. Não são os guardiões de nada, apenas
complementos na vida dos outros. Laterais vivem de migalhas, protegidos por uns
e serviçais de outros. Não existe sangue no olho de um lateral.
A dupla de laterais
vive nos opostos do mundo, e nunca se encontram. Entre seus universos existe um
oceano de zagueiros a lhes separar. A dupla de laterais é triste. Pela
distancia um jamais irá ouvir o outro, mas precisam se conhecer. Devem ter o
entendimento apenas pelo olhar. Saber aonde o outro vai estar, para definir seu
movimento, sem jamais poder toca-lo. Para um atacar, o outro deve defender.
Devem estar sempre em balanco, em perfeito equilíbrio mas sempre opostos,
sempre distantes. Não poderíamos ser laterais.
Não poderíamos ser meias. Meias são astros, e estrelas são egositas. Os
articuladores vivem para ser
protagonistas, senhores do universo. O time gravita em volta deles, todos a
pedir a bencao de seus pés a carimbar a bola.
O maestro que postado a frente dos músicos orienta o andar da carruagem,
mas sem emitir uma única nota. Seu local é so seu, e sua posição é a frente dos
demais, dando as costas para o mundo. O seu momento é o drible, mesmo que não
seja produtivo. O seu momento é um passe que irá ser valorizado mais do que o
gol. Os meias são criadores levianos. Cigarras cantando sem pensar no inverno. O
astro jamais se sacrifica. Correm quando lhes convem, quando a bola se atira em
sua direção, ou se projetam a frente a sua espera.
Nunca se ouviu falar em dupla de meias, apesar de como todos
outros viverem aos pares. Não existe dupla sem comprometimento, sem entrega,
sem parceria, sem doação, e isto não faz parte do vocabulário dos meias. Um
serve o outro pelo brilho pessoal, não pelo outro. Eles se encontram, flertam
um com o outro em suas tabelas e lançamentos, mas jamais passará disto. Não
poderíamos ser meias.
Não poderíamos ser atacantes. Atacantes são definidores.
Atacantes são matadores de aluguel. Atacantes são seres frios. O atacante passa
o jogo todo a esperar, aguarda o bote do qual se alimenta. Dele sai o grande
momento do espetáculo: o gol. Seu nome estará nos jornais. Quem não conhece o
jogo, irá sempre se lembrar dos atacantes. Todos vivem para servi-los,
empenhando seu suor para que eles executem o gran finale. Atacantes são incompletos. Sacis que em uma
perna so atacam apenas. Não jogam o jogo todo, mas lampejos de intensidade e
depois se apagam. Não correm o campo todo, mas apenas a parte que lhes
interessa. Tiram o marfim e atiram o elefante ainda sangrando para que outros
carreguem.
Os atacantes jamais são semelhantes em suas dupla. Dois
atacantes iguais não combinam. Opostos jogam juntos. Um que corre, um que
briga. Um que serve, um que e mata. Um que prepara, um que define. Um que usa a
cabeça e um que usa os pés. Não existe igualdade, jamais poderá existir amor.
Não poderíamos ser atacantes.
Só podemos ser volantes. Os volantes são o coração de um
time. Os volantes são o símbolo de uma equipe. Os volantes são o motor, o
dínamo da aceleração. O coração ditando a velocidade do corpo. A tambor a ditar
o compasso da musica. Os volantes estão pelo campo todo. Não existe tarefa que
o volante possa dizer que não é sua. De área a área, de bandeira a bandeira, o
volante esta presente. O volante tem de atacar com a mesma gana que defende.
Tem que criar com a naturalidade que destrói. Quando os atacantes precisarem
ele tem de estar lá a lhes apoiar. Quando houver um defensor subjugado ele deve
aparecer. O volante carrega o piano, e se faltarem músicos pode ser escalado em
qualquer lugar da orquestra.
Não existe dupla mais bonita que a de volantes. Eles não tem
função especifica, são complementares. Um deve estar aonde outro não pode
estar, ocupando o vácuo deixado de sua ausência. Podem atacar juntos, ou
defender juntos. Podem atacar porque sabem que o outro esta a lhes proteger, e
podem marcar pois sabem que poderão contar com o outros a lhes levar para
frente. Podem estar separados cada um fazendo uma função, mas sabem que sempre
voltarão para perto um do outro. A jogada se desenha de forma imprevisível, e a
dupla pode correr junto ou se despercar mas assim que a bola sair, eles estarão
lado a lado novamente. Só poderíamos ser
volantes. Só poderíamos jogar em dupla.
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