A noite é quando os monstros acordam. Quando o silencio é
total posso ouvir seus gritos em sussurros. Quando o breu domina posso ver seus
rostos a se retorcer. Posso senti-los acordar nas profundezas do meu peito.
Quando nada a minha volta se move, posso sentir suas mãos calejadas e unhas
compridas acariciar minhas entranhas.
No ultimo suspiro do dia, quando estou para encerrar o hoje
e transitar para o amanha é que eles aparecem. Os monstros são seres das profundezas, e
jamais ascenderão. O corpo ereto é algo no qual eles jamais poderão se mexer então
agarrados ao ser eles se escondem. Mas no corpo deitado, em posição de morte
eles podem se movimentar. Rastejando, se arrastando eles se deslocam como
cobras, deixando um traço de sujeira e podridão pelo chão que escorrem.
Quando fecho meus olhos, posso sentir claramente que eles
começam a se mexer. Como se pudesse ouvir o ar se mover ao primeiro e mais
sutil de seus movimentos. Sinto-os acordar quando eu deveria adormecer, e sinto
sua pútrida respiração dentro de meu peito.
O primeiro ataque é
através dos brônquios tirando o ar dos pulmões. A respiração fica difícil e
entrecortada, como a experenciar a sensação de morte por asfixia. Atacam logo
no ar, a fonte de vida que se renova a cada ciclo, como se a atacar o sopro de
vida.
Dominados os pulmões eles escorrem para a barriga. Gelam as
paredes do estomago, fazendo-o quase a encostar nas costas e tocar a espinha
por onde o frio erradia. É como se esvaziassem todo o estomago, tirando dali
todo o alimento que manterá o corpo vivo.
Ainda no tórax eles sobem para o coração. Não chegam a
ataca-lo, mas o espreitam. O coração símbolo dos sentimentos e da vida não é
tocado, mas cercado. Toda sua existência é coberta por uma espessa nevoa com a
cor dos maus presságios. Isolado o coração, maestro e ditador do ritmo dos
demais, são senhores do corpo.
Com o coração em suas maos, partem para a ultima defesa
fisica e atacam os braços. Símbolos da forca e do trabalho, também se tornam
seus vassalos e sob suas ordens as mãos começam a tremer, perdendo sua destreza
e vitalidade. Mesmo que os braços jamais poderão tocar á criaturas do medo e do
interior, dominam-os quase que para zombar do individuo.
Corpo dominado eles se arrastam para cima, fechando a
garganta. Atacando o canal que simboliza a ligação da mente e do corpo,
fechando-o quase que por completo. Por ali nada há de passar, sem lhes pagar
tributo. Eles passam a decidir quanto e quem pode passar pelo estreito que
agora é de seu domínio, e em sua fome de dominar os demônios continuam a subir.
Chegam ao seu objetivo: o cérebro. Onde moram as ideias é
que está o verdadeiro domínio. Os demônios não se contentam com pouco e nada
mais lhe serve alem do domínio total, atirando o individuo a escravidão da
loucura. Pela garganta eles sobem sorrateiros, um a um. O primeiro a
desembarcar traz os primeiros temores. Os medos começam a desestabilizar as
defesas, e mais demônios chegam. Plantam duvidas e semeam a desconfiança, para
colher seu alimento: a agonia. Agoniada a mente o corpo se inquieta e se revira
na cama. Sacode a cabeça como se por chacoalhar pudesse derruba-los, fazendo-os
escorrer pela garganta e cair de volta no peito, onde se pode fechar o
calabouço e tranca-los novamente. Mas a cada milésimo no cérebro os demônios enfiam
seus pés como raízes nas entranhas da carne das ideias.
Como uma destocar as raízes é a parte mais difícil, e os
demônios serão podados, até cortados, mas muito dificilmente destocados. Achar
suas raízes sem tronco será difícil o bastante, destoca-los quase impossível.
Instalados nas ideias, festeando no seu carnaval de agonia
eles se refestelem enquanto o individuo se mexe na cama. Temeroso o individuo
cai em um sono agitado, e o cérebro desliga. Então começa o verdadeiro combate,
a ultima instancia: demônios e o inconscientes.
Os demônios já fortes
e alimentados se preparam para enfrentar o inconsciente, senhor dos sonhos.
Durante horas que podem durar séculos o inconsciente irá trazer a tona as
lembranças e desejos que fazem o individuo ser quem ele é. Os demônios
reconhecem o inconsciente com parte deles, sabem que são feitos da mesma carne
e partilham uma única alma. Eles se reconhecem e rolam abraçados, a se amar e digladiar.
De seu sangue derramado o individuo ira criar sonhos. Memórias de uma vida que
nunca houve, criada a partir dos medos e desejos mais esquecidos e renegados. O
mais puro dos desejos, a mais fértil imaginação irá nascer deste encontro e
será chamada de sonhos.
A luz da manha irá encontrar o rosto do individuo a sorrir
ou se contorcer. O sol juiz da vida irá terminar a batalha, espantar os
monstros para seu calabouço, mas jamais mata-los. Durante o dia eles seguirão
dentro do individuo, em silencio. Eles ficarão quietos para que o pobre ser
possa fingir ignora-los e tentar se misturar a multidão, mas ambos sabem que
quando a luar banhar o mundo e o corpo voltar a sua posição de descanso eterno
eles voltarão a assombrar sua existência.
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