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terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Ponte

Me lembro perfeitamente a primeira vez que a vi: alva e brilhante a outra margem do rio. Tao próxima e tão distante. Suas feições eram delicadas, e minhas narinas foram invadidas pelo cheiro de pureza que eu podia captar com meus olhos. Meu coração e olhos estavam cheios deste ser que nem ao menos tinha nome.
Diante de tanta pureza, senti vergonha de minhas roupas sujas e apenas não corri porque minhas pernas não me obedeciam. Era como se pelo efeito dela tivessem se enterrado ao chão como raízes. Nossos olhares se cruzaram e eu em um misto de esperança e falta de opção: sorri.
Ela sorriu. Com elas sorriram os pássaros, as folhas das arvores e o vento. O frio que correu minha espinha começa pelo rio sob meus pés e terminava em seu sorriso. Como se nossos olhos estivessem amarrados os olhares não desgrudaram. Seu sorriso perfeito, alinhado e branco refletia o meu canino e cheio de dentes.
 O rio e a distancia abafariam nossas vozes então nem tentamos falar, nossos olhos e sorrisos falavam por nós. E gritavam, em um sussurro que o mundo todo podia ouvir. Em contemplação passamos 3 dias e 3 noites. Eu temia me mexer, desamarrar nossos olhos e cair do céu.
A angustia já me matava, e caçador que sou, tive que me mexer mesmo que tomado pelo medo. Me levantei, e ela se levantou. Ela anuía com minha visita e mais: convidava. Sem certeza do que fazia passei a construir uma ponte. Uma ponte entre dois mundos. Um ponte sobre um rio de forca que separava os mundos desde sempre.
A construção da ponte revoltou meu povo e minha velha mãe veio a meu encontro. Falou das diferenças entre os povos, me pediu que fosse normal e buscasse uma do meu próprio tipo. Eu havia conhecido todas as minhas semelhantes em uma só, e optado pelo exílio da solidão por não suportar mais aquela musica de uma única nota.
Senhor de meu destino, fiquei com os conselhos, enxotei os que não apoiavam e continuei a trabalhar. Dia e noite vivi para aquela ponte. Em cada momento do meu dia construía a ponte. Cada movimento de caça, cada moeda, cada gota de suor era aquela ponte.
Ela seguia a me apoiar. Seu olhar macio seguia cravado no meu, como a me apoiar. Seu olhar cada vez mais era doce, como se não visse o sangue em minhas mãos, ou a sujeira que o povo depositava a meus pés.
A mãos calejadas já tomavam vida própria e construíam a ponte mesmo quando eu descansava. Ate que  ponte alcançou a outra margem. Com medo, ansiedade e tesao coloquei meu pe direito na ponte. Levantei os olhos e na margem oposta ela fazia o mesmo. Comecamos a caminhar a passos lentos que se transformaram em galope ate que nos encontramos no meio da ponte.
Quao mais perto eu chegava mais via sua delicadeza. Quao mais perto eu chegava via tudo menos eu mesmo. A pele branca, os ossos finos e marcados, os dedos longos. A voz lírica que massageava meus ouvidos.
Meu medo virou confiança quando mais de perto pude ver seus olhos cheios de admiração, e meu medo se transformou em forca. Ela me tomou as mãos escondidas as costas e beijou minha alma. A ponte que nos unia a orgulhava, e olhávamos desafiadores aos nossos povos, estrangeiros de um ao outro que lotavam as margens da ponte sem ter coragem de pisa-la.
Sobre a ponte vivemos, nos alimentando de amor. Na ponte nos conhecemos e mergulhamos um no outro. 3 meses de dias e 3 meses de noites passamos em nossa ponte.
Neste tempo o medo foi passando. Quase esquecíamos que éramos estrangeiros. A principio acreditamos que em nosso entrelaçar de almas fosse alterar nossos corpos e fossemos nos assemelhar. Mas não aconteceu, nossas diferenças seguiam iguais, afinal éramos carne, e carne é imutável. Trouxemos conosco os hábitos de nossos povos, e todos os dias os juntávamos em um caldeirão para preparar o jantar.
Nosso exílio obteve o respeito dos povos e passamos a receber oferendas as margens da ponte. Nossos reis vinham a nos com provas da legitimidade de nossa ponte. Prontos para viver no exílio não sabíamos como reagir as portas abertas e passe livre para transitar pelos mundos. De mãos dadas caminhamos por ambos os mundos, mostrando um ao outro lugares antes vistos apenas em livros. Eu voltava todos os dias encantado, apaixonado por um mundo que se abria e me ensinava. Minha caça e minha alma saiam mais ricos de cada novo passeio. Eu via em cada nova fruta um novo sabor, e novo conhecimento. De seu mundo eu trouxe a doma, o domínio do rio e a arte. Em meu mundo eu buscava mostrar a elas as pedras que construíam o meu ser, na esperança de admira-la e que ela escolhesse as que lhe coubessem.
O novo me encantava, mas eu não esquecia de onde meus pés haviam se tornado raízes. Eu era o que era, e carregava comigo o meu povo. Quase antropofágico eu me alimentava do novo pra fazer um velho melhor. A corte de meu rei clamava por mim todos os dias, com medo de que eu os abandonasse. Eu na gritava de volta, não precisava, eu era um deles e sabia disto.
Uma noite vi que a ponte começava a ruir. Eu havia construído a ponte para um breve encontro, e mergulhada na paixão jurávamos o temporário permanente. Abracado em suas inocência eu temi pela ponte.
Ainda abraçado em seus cabelos de lírios lembrei da primeira vez que a tive em meus braços. Seu corpo frágil parecia que quebraria, se eu apertasse. Suas mãos que seguravam as minhas eram de uma maciez imaculada. Eu amava a sua inocência e temia ela. Sabiam que aquelas mãos jamais iriam construir pontes comigo e que sua alma jamais suportaria a morte da caça. Sabia que durante todos os dias eu teria de proteger aquele corpo delgado como o cão que eu era. Uma lagrima brotou de meu olho esquerdo, e engoli-a para que em seu gosto salgado eu repetisse a promessa que havia tomado meu coração.
A temporaria ponte não mais suportava, e precisávamos torna-la permanente. Eu sabia que não havia lugar para nos em nenhum dos mundos. Ao cruzar a fronteira nos tornamos subversivos e cidadãos do mundo, cães sem pátrias. Ainda éramos bem vindos, mas na forma dee diplomatas, convidados para sentar em todas as salas mas sem nunca passar da parte social das casas. A pia de loca suja e a intimidade do quarto não nos queriam em nenhum dos mundos. Abandonavamos o passado para abraçar o futuro.
Comecei a projetar, não uma ponte mas algo maior. Uma ligação de terra, permanente e eterna, nosso próprio mundo um estreito unindo os mundos que nos originaram. Ligando as duas margens mágicas no local onde nasceu o nosso amor. Exatamente no meio do caminho seria construído um grande totem, com o que cada um de nos escolhesse trazer de seu mundo. Seria o mundo onde dois fariam um, ou vários. Em nosso mundo não mais seriamos estrangeiros mas reis de nosso próprio castelo.
Levantei os olhos e percebi sua ausência. Sua ausência cortou minha carne como uma navalha gelada. Olhei e percebi que a ausência crescia. Sentei, como havia sentado um dia a margem do rio e assisti a ausência. Era como se ela temesse a água do rio, como se a ponte fosse ruir e ela se afogar. Tentei explicar que o rio era raso que ela poderia se salvar. Gritei que se ela fraquejasse eu poderia carrega-la nadando, mas ela não me ouvia. Desconfiava de meus caninos afiados como se eles fossem rasgar sua carne. Minhas mãos em garra faziam seus olhos refletirem medo e pavor.
Primeiro me escondi, depois mostrei minha nudez mais ainda para tentar lembrar-lhe como antes lhe eram querido. Cada vez mais distante do centro ela me olhava, ate que ficava na margem do rio mesmo que a ponte estivesse ali para acolhe-la.
Tomado de tristeza, abandono e dor eu esperava, no centro da ponte ainda a olhar para a margem onde ela se colocava. Chamava-a de volta e tentava pintar a despedaçada ponte, para que ela voltasse a ficar atraente.
Eu sabia que não poderia voltar ao meu mundo. Eu tinha a mesma oferta que ela, devolver meu passaporte e em troca voltar a ser cidadão. Mas eu sabia que não cabia mais em minha cidadania. Ambos os reis foram claros: para voltar, teríamos de voltar ocmo éramos, nada de importar novos hábitos. O reino fora sempre deste jeito e não tinha interesse em mudança. Eu olhava com pesar para minha margem antiga, sabia que não podia voltar e muito menos o queria.
Até que ela voltou: apareceu a sua margem e meu coração se encheu de esperanças. Cheguei mais perto e vi que suas mãos de princesa carregavam o machado do carrasco. A principio fiquei aliviado quando soube que a lamina não vinha cortar me a cabeça. Depois preferi que tivesse sido quando soube que aquela lamina seria o algoz de nossa ponte. Ela havia vindo destruir o altar que eu havia erguido para nosso amor. Seus olhos eram ódio, e eu quase não a reconhecia. Ela me fez uma oferta: atravessar a ponte antes que ela a destruísse. Deixar minhas roupas imundas na ponte e para que fossem queimadas.  Eu não podia, procurei em seu olhar o reconhecimento das diferenças que ela amou. Eu era aquelas botas sujas de viceras, e a roupa estava colada em minha pele.
Fria como a lamina de seu machado ela começou a castigar a ponte. Cortou cada pedaço, como se a mínima ligação pudesse infectar seu mundo de ninfa com a podridão que emanava do meu mundo e de meus poros.
Eu ali fiquei sentado vendo-a destruir e partir sem olhar para traz. Vi que estava sozinho, abandonado e ali onde antes tinha dois, que prometiam ser mais, nada mais estava do que minha solitária existência. Dei um passo em direção onde um dia foi minha casa, mas parei:  sabia que não pertencia mais.

Ainda na ponte fiquei  fiquei sentado. Abandonado, traído, negligenciado eu me sentia orgulhoso de não esquecer quem eu era, e de querer ser alguém melhor. Alguem que enfrenta o desconhecido, anseia pelo futuro, bebe do novo sem esquecer do velho. Eu havia topado abrir mao do eu pelo nós, mas jamais do eu para ser dois dela. Fiquei ali sentado, esperando a ponte ruir e o rio me engolir.

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