Me lembro perfeitamente a primeira vez que a vi: alva e
brilhante a outra margem do rio. Tao próxima e tão distante. Suas feições eram
delicadas, e minhas narinas foram invadidas pelo cheiro de pureza que eu podia
captar com meus olhos. Meu coração e olhos estavam cheios deste ser que nem ao
menos tinha nome.
Diante de tanta pureza, senti vergonha de minhas roupas
sujas e apenas não corri porque minhas pernas não me obedeciam. Era como se
pelo efeito dela tivessem se enterrado ao chão como raízes. Nossos olhares se
cruzaram e eu em um misto de esperança e falta de opção: sorri.
Ela sorriu. Com elas sorriram os pássaros, as folhas das
arvores e o vento. O frio que correu minha espinha começa pelo rio sob meus pés
e terminava em seu sorriso. Como se nossos olhos estivessem amarrados os
olhares não desgrudaram. Seu sorriso perfeito, alinhado e branco refletia o meu
canino e cheio de dentes.
O rio e a distancia
abafariam nossas vozes então nem tentamos falar, nossos olhos e sorrisos
falavam por nós. E gritavam, em um sussurro que o mundo todo podia ouvir. Em
contemplação passamos 3 dias e 3 noites. Eu temia me mexer, desamarrar nossos
olhos e cair do céu.
A angustia já me matava, e caçador que sou, tive que me
mexer mesmo que tomado pelo medo. Me levantei, e ela se levantou. Ela anuía com
minha visita e mais: convidava. Sem certeza do que fazia passei a construir uma
ponte. Uma ponte entre dois mundos. Um ponte sobre um rio de forca que separava
os mundos desde sempre.
A construção da ponte revoltou meu povo e minha velha mãe
veio a meu encontro. Falou das diferenças entre os povos, me pediu que fosse
normal e buscasse uma do meu próprio tipo. Eu havia conhecido todas as minhas
semelhantes em uma só, e optado pelo exílio da solidão por não suportar mais
aquela musica de uma única nota.
Senhor de meu destino, fiquei com os conselhos, enxotei os
que não apoiavam e continuei a trabalhar. Dia e noite vivi para aquela ponte.
Em cada momento do meu dia construía a ponte. Cada movimento de caça, cada
moeda, cada gota de suor era aquela ponte.
Ela seguia a me apoiar. Seu olhar macio seguia cravado no
meu, como a me apoiar. Seu olhar cada vez mais era doce, como se não visse o
sangue em minhas mãos, ou a sujeira que o povo depositava a meus pés.
A mãos calejadas já tomavam vida própria e construíam a
ponte mesmo quando eu descansava. Ate que
ponte alcançou a outra margem. Com medo, ansiedade e tesao coloquei meu
pe direito na ponte. Levantei os olhos e na margem oposta ela fazia o mesmo.
Comecamos a caminhar a passos lentos que se transformaram em galope ate que nos
encontramos no meio da ponte.
Quao mais perto eu chegava mais via sua delicadeza. Quao
mais perto eu chegava via tudo menos eu mesmo. A pele branca, os ossos finos e
marcados, os dedos longos. A voz lírica que massageava meus ouvidos.
Meu medo virou confiança quando mais de perto pude ver seus
olhos cheios de admiração, e meu medo se transformou em forca. Ela me tomou as
mãos escondidas as costas e beijou minha alma. A ponte que nos unia a
orgulhava, e olhávamos desafiadores aos nossos povos, estrangeiros de um ao
outro que lotavam as margens da ponte sem ter coragem de pisa-la.
Sobre a ponte vivemos, nos alimentando de amor. Na ponte nos
conhecemos e mergulhamos um no outro. 3 meses de dias e 3 meses de noites
passamos em nossa ponte.
Neste tempo o medo foi passando. Quase esquecíamos que
éramos estrangeiros. A principio acreditamos que em nosso entrelaçar de almas
fosse alterar nossos corpos e fossemos nos assemelhar. Mas não aconteceu,
nossas diferenças seguiam iguais, afinal éramos carne, e carne é imutável. Trouxemos
conosco os hábitos de nossos povos, e todos os dias os juntávamos em um
caldeirão para preparar o jantar.
Nosso exílio obteve o respeito dos povos e passamos a
receber oferendas as margens da ponte. Nossos reis vinham a nos com provas da
legitimidade de nossa ponte. Prontos para viver no exílio não sabíamos como
reagir as portas abertas e passe livre para transitar pelos mundos. De mãos
dadas caminhamos por ambos os mundos, mostrando um ao outro lugares antes
vistos apenas em livros. Eu voltava todos os dias encantado, apaixonado por um
mundo que se abria e me ensinava. Minha caça e minha alma saiam mais ricos de
cada novo passeio. Eu via em cada nova fruta um novo sabor, e novo
conhecimento. De seu mundo eu trouxe a doma, o domínio do rio e a arte. Em meu
mundo eu buscava mostrar a elas as pedras que construíam o meu ser, na
esperança de admira-la e que ela escolhesse as que lhe coubessem.
O novo me encantava, mas eu não esquecia de onde meus pés
haviam se tornado raízes. Eu era o que era, e carregava comigo o meu povo.
Quase antropofágico eu me alimentava do novo pra fazer um velho melhor. A corte
de meu rei clamava por mim todos os dias, com medo de que eu os abandonasse. Eu
na gritava de volta, não precisava, eu era um deles e sabia disto.
Uma noite vi que a ponte começava a ruir. Eu havia
construído a ponte para um breve encontro, e mergulhada na paixão jurávamos o
temporário permanente. Abracado em suas inocência eu temi pela ponte.
Ainda abraçado em seus cabelos de lírios lembrei da primeira
vez que a tive em meus braços. Seu corpo frágil parecia que quebraria, se eu
apertasse. Suas mãos que seguravam as minhas eram de uma maciez imaculada. Eu
amava a sua inocência e temia ela. Sabiam que aquelas mãos jamais iriam
construir pontes comigo e que sua alma jamais suportaria a morte da caça. Sabia
que durante todos os dias eu teria de proteger aquele corpo delgado como o cão
que eu era. Uma lagrima brotou de meu olho esquerdo, e engoli-a para que em seu
gosto salgado eu repetisse a promessa que havia tomado meu coração.
A temporaria ponte não mais suportava, e precisávamos
torna-la permanente. Eu sabia que não havia lugar para nos em nenhum dos
mundos. Ao cruzar a fronteira nos tornamos subversivos e cidadãos do mundo,
cães sem pátrias. Ainda éramos bem vindos, mas na forma dee diplomatas,
convidados para sentar em todas as salas mas sem nunca passar da parte social
das casas. A pia de loca suja e a intimidade do quarto não nos queriam em
nenhum dos mundos. Abandonavamos o passado para abraçar o futuro.
Comecei a projetar, não uma ponte mas algo maior. Uma
ligação de terra, permanente e eterna, nosso próprio mundo um estreito unindo
os mundos que nos originaram. Ligando as duas margens mágicas no local onde
nasceu o nosso amor. Exatamente no meio do caminho seria construído um grande
totem, com o que cada um de nos escolhesse trazer de seu mundo. Seria o mundo
onde dois fariam um, ou vários. Em nosso mundo não mais seriamos estrangeiros
mas reis de nosso próprio castelo.
Levantei os olhos e percebi sua ausência. Sua ausência
cortou minha carne como uma navalha gelada. Olhei e percebi que a ausência
crescia. Sentei, como havia sentado um dia a margem do rio e assisti a
ausência. Era como se ela temesse a água do rio, como se a ponte fosse ruir e
ela se afogar. Tentei explicar que o rio era raso que ela poderia se salvar.
Gritei que se ela fraquejasse eu poderia carrega-la nadando, mas ela não me
ouvia. Desconfiava de meus caninos afiados como se eles fossem rasgar sua carne.
Minhas mãos em garra faziam seus olhos refletirem medo e pavor.
Primeiro me escondi, depois mostrei minha nudez mais ainda
para tentar lembrar-lhe como antes lhe eram querido. Cada vez mais distante do
centro ela me olhava, ate que ficava na margem do rio mesmo que a ponte
estivesse ali para acolhe-la.
Tomado de tristeza, abandono e dor eu esperava, no centro da
ponte ainda a olhar para a margem onde ela se colocava. Chamava-a de volta e
tentava pintar a despedaçada ponte, para que ela voltasse a ficar atraente.
Eu sabia que não poderia voltar ao meu mundo. Eu tinha a
mesma oferta que ela, devolver meu passaporte e em troca voltar a ser cidadão.
Mas eu sabia que não cabia mais em minha cidadania. Ambos os reis foram claros:
para voltar, teríamos de voltar ocmo éramos, nada de importar novos hábitos. O
reino fora sempre deste jeito e não tinha interesse em mudança. Eu olhava com
pesar para minha margem antiga, sabia que não podia voltar e muito menos o
queria.
Até que ela voltou: apareceu a sua margem e meu coração se
encheu de esperanças. Cheguei mais perto e vi que suas mãos de princesa
carregavam o machado do carrasco. A principio fiquei aliviado quando soube que
a lamina não vinha cortar me a cabeça. Depois preferi que tivesse sido quando
soube que aquela lamina seria o algoz de nossa ponte. Ela havia vindo destruir
o altar que eu havia erguido para nosso amor. Seus olhos eram ódio, e eu quase
não a reconhecia. Ela me fez uma oferta: atravessar a ponte antes que ela a
destruísse. Deixar minhas roupas imundas na ponte e para que fossem
queimadas. Eu não podia, procurei em seu
olhar o reconhecimento das diferenças que ela amou. Eu era aquelas botas sujas
de viceras, e a roupa estava colada em minha pele.
Fria como a lamina de seu machado ela começou a castigar a
ponte. Cortou cada pedaço, como se a mínima ligação pudesse infectar seu mundo
de ninfa com a podridão que emanava do meu mundo e de meus poros.
Eu ali fiquei sentado vendo-a destruir e partir sem olhar
para traz. Vi que estava sozinho, abandonado e ali onde antes tinha dois, que
prometiam ser mais, nada mais estava do que minha solitária existência. Dei um
passo em direção onde um dia foi minha casa, mas parei: sabia que não pertencia mais.
Ainda na ponte fiquei
fiquei sentado. Abandonado, traído, negligenciado eu me sentia orgulhoso
de não esquecer quem eu era, e de querer ser alguém melhor. Alguem que enfrenta
o desconhecido, anseia pelo futuro, bebe do novo sem esquecer do velho. Eu
havia topado abrir mao do eu pelo nós, mas jamais do eu para ser dois dela.
Fiquei ali sentado, esperando a ponte ruir e o rio me engolir.
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