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terça-feira, 30 de setembro de 2014

A Dor de Despertar

 “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
É que quando eu me toquei achei tão estranho
A minha barba estava deste tamanho”
(Arnaldo Antunes – Não vou me Adaptar)
http://www.youtube.com/watch?v=m3XYcV1JpFA
Um dia a gente acorda. Olha em volta e não reconhece a casa. Olha no espelho e encontra alguém bem mais velho a nos fitar. Olha melhor e vê uma barba que insiste em crescer. Em volta dos olhos vemos as marcas do tempo a fazerem morada. Um pouco mais acima o cabelo já não é mais o mesmo. Em algumas áreas ele começa a faltar, e outras a clarear. Olho esta cara no espelho e não a reconheço.
Olho melhor e tento me lembrar da noite passada. Minha cabeça dói e na minha boca um gosto horrível. Não lembro bem de como cheguei até aqui. Me esforço e começo a ter imagens da noite que se passou. Vejo as cenas de fora do meu corpo, como se aquele com a minha cara não fosse eu. Um espectador da minha própria vida. E não gosto do que vejo.
Vejo aquele com a minha cara fazer papel de ridículo e grito com todos meus pulmões para avisa-lo, para impedi-lo. Mas ele não me ouve. Ou será que me ouve, e não quer ouvir? Será que precisa que eu lhe avise, ou ele mesmo já sabe de tudo? Se ele sabe, se ele ouve, porque continua? Ele cai, e vou para o chão com ele. Ele chora com os olhos secos, e grita com a boca fechada. Será que apenas eu vejo que ele esta morrendo? Olho em volta a implorar por ajuda e me choco: todos naquela sala não são pessoas. Aberrações com o rosto derretido e grandes cicatrizes cobrindo onde seriam as orbitas dos olhos. A boca costurada para nunca mais se abrir. De repente vejo faces normais e me encho de esperança: mas eles falam sozinhos, como loucos. Cada um dança a própria musica e não há ritmo comum entre as almas. Eles não estão juntos, estão todos sozinhos. Volto meus olhos desesperados para o eu ali no chão, e vejo que ele me fita. Ele pode me ver e sorri jocosamente. Ele sabe o que sinto.
Por isto acordei desesperado e me dirigi ate o espelho.
Como eu cheguei até aqui?! Quem é este cheio de barba, rugas e cicatrizes a me fitar. Olho com atenção para o meu presente e vejo um rosto cansado. Olheiras e os vincos do rosto murmuram por um pouco de paz. Olho me pergunto: como cheguei até aqui?
Vem a minha cabeça a memória de um caminho. Cheio de encruzilhadas. Penso melhor e me lembro de um grande campo, sem estradas demarcadas para que eu tivesse que escolher uma ou outra. O campo era aberto e eu tinha as pernas para me levar onde eu quisesse ir. Mas porque eu me lembrava de uma encruzilhada? Me lembro de dobrar a esquerda ao invés de ir pela direita... Por quê?
Me lembro do caminho começar a ficar mais escuro. De o chão antes verde começar a ficar lamacento. O cheiro de flores que impregnava o ar começava a se tornar úmido e fétido. E porque eu não voltei?! Não me lembro de alguma porta se fechar que não me permitisse assumir o erro e simplesmente voltar.
Ao invés de voltar comecei a correr na direção antes escolhida. Como se aquela escuridão fosse à provação para me levar ao fim do labirinto. Olho em volta e não vejo paredes. Não há labirinto, apenas a prisão da minha própria mente.
Cansado e assustado abro meus olhos e as lembranças desaparecem. Estou no chão, da casa que me escolheram, vestindo roupas que não são minhas e não reconheço meu espelho. E ao mesmo tempo me vejo tendo feito todas as escolhas.

Escondo meu rosto nas mãos e respiro fundo. Olho novamente no espelho e me reconheço. Olho pela janela e vejo que o dia já esta raiando. Movo minhas pernas e braços e vejo que nunca foram tão musculosos. Escancaro a porta e saio com uma pena na mao, para escrever meu futuro.   


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