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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pedras

No começo dos tempos as pedras se formaram. Neste momento existia uma pedra completa e que se bastava. Um dia esta pedra foi atingida por um raio vindo dos céus que a separou em duas metades iguais. A separação foi perfeita, sem que nenhum fragmento da pedra inteira houvesse se perdido. As duas metades eram uma o negativo da outra, um encaixe perfeito e que juntas ainda formavam a pedra inteira, robusta e completa. Mas o mesmo terrível raio mandado pelo universo que dividiu a bela rocha original não se contentou em rasgá-la ao meio e quis separá-la. Com o impacto de sua forca ao dividir a rocha suas novas metades, de encaixe perfeitos foram separadas por alguns centímetros. Esta pequena distancia que as separava que poderia ser quase imperceptível para alguns fez com que estas duas metades esquecessem que a outra existia, e que virassem seus olhos para o resto do mundo. O tempo, senhor de todos os destinos, agiu sobre estas pedras. Esta pequena distancia entre elas mudou todo o seu destino. Uma metade foi carregada pela chuva, que passou próxima da outra metade mas a deixou ali. A outra metade também não ficou parada e foi carregada pelo tempo e o universo por outros caminhos. O tempo fez com que os elementos do universo trabalhassem estas pedras aparando suas arestas e mudando sua forma, fazendo com que elas se parecessem diferentes. Mas  o tempo e o universo não tiveram forças para mudar o que estas pedras eram. Sua composição química, seu DNA e sua energia não pertenciam ao tempo e nem todos os choque que ele colocou nos caminhos das metades da pedra poderiam alterar o que estava abaixo da superfície. Tanto tempo se passou desde a separação original que as pequenas metades nem mesmo lembravam de sua historia. Elas não sabiam o que lhes faltava, mas sabiam que algo faltava. Estas metades sabiam que eram diferentes das outras pedras a sua volta. Sabiam que algo lhes faltava com um eterno vazio sem que entendessem o que este sentimento era ou o que o preencheria. Estas pedras tentaram ser pedras comuns e ficar nas pilhas de pedras que se vêem por ai, mas elas simplesmente não se acomodavam no monte. Estas pedras tentaram se encaixar em outras pedras, procurando posições de conforto onde estivessem seguras e protegidas, e não mais sozinhas. Mas nada disto parecia funcionar. Os encaixes com pedras comuns a principio pareciam dar certo e traziam paz, mas o tempo trazia de volta o sentimento de vazio colocando as metades novamente na estrada na busca do que elas não sabiam o que era.
As pedras não são como pecas de um quebra cabeça de arestas grandes e definidas que tem um par certo a ser encaixados e jamais se encaixarão ao par errado, as pedras são mais complexas. Mais fáceis e mais difíceis de encaixar. As pedras parecem ter feições simples, de forma que podem ser mais fáceis de encaixar. É fácil colocar uma pedra ao lado de outra sem que haja rejeição. Assim este par de pedras pode combinar e conviver em harmonia e paz. Mas as pedras são muito mais complexas. As pedras tem ranhuras e arestas tão detalhadas e tão  perfeitas que não podem ser vistas a olho nu. E estas arestas são as pontas que devem ser encaixadas para se ter o perfeito encaixe de uma pedra.
As duas metades seguiam separadas pelo tempo e o universo, sempre sendo trabalhadas, desgastadas e mudando. Um dia o universo fez com que estas duas metades de um só corpo se encontrassem. As duas metades se reconheceram no instante que se tocaram e sabiam que eram apenas uma. Cada molécula de seus corpos parecia reconhecer o seu par e sua energia as fazia saber que aquele momento era sublime.As duas metades sabiam que a sua frente estava o seu destino e a resposta de suas perguntas. Naquele momento as duas metades sabiam que tinha encontrado seu encaixe perfeito. Então, as duas metades jogaram seus corpos um contra o outro buscando o encaixe.Mas o encaixe não veio. As metades se assustaram. Como seria possível elas que eram apenas uma não se encaixarem mais?Como seria possível que este encontro que elas esperaram por todo o tempo fosse em vão? Como elas continuariam sua existência sem a sua metade?Isto era impossível, então as metades acreditaram que era uma questão de se posicionar. Elas mudaram de posição por tantas vezes procurando uma formula que fosse o encaixe perfeito, mas o encaixe não vinha.
As duas metades entenderam então que elas haviam mudado. Apesar de pertencerem uma a outra seus corpos não mais se encaixavam. As experiências que passaram e o efeito do tempo e do universo os tornaram seus corpos estrangeiros um ao outro.
Mas o que o tempo fez, o tempo poderia desfazer. Se elas comprimissem seus corpos com tanta forca um contra o outro e esperassem o tempo agir ele as faria voltar a encaixar e elas voltariam a ser uma só. O que as duas metades não sabiam era da dor.Elas eram pedras rígidas e muito duras. Para transformar sua forma o tempo e o universo demoraram séculos. Agora elas precisariam agüentar séculos de desencaixe até que voltassem a pertencer uma a outra com perfeição. As duas metades se mantiveram juntas pois iriam agüentar o desconforto do desencaixe por saber que pertenciam uma a outra. Que sua aura era uma só e que elas precisavam uma da outra para serem completas.Apenas elas eram compatíveis, apenas elas era da mesma espécie.
 E elas sofreram.O tempo fazia com que elas se mexessem agredindo uma a outra com suas arestas. As pedras usaram a fricção de seus corpos para se polirem, conhecendo cada molécula do corpo da outra para saber se encaixar melhor. Mas a cada desencontro, a cada ranger de suas pontas tão diferentes, a cada choque seus corpos doíam. As pedras antes tão decididas e tão senhoras de seu destino começaram a fraquejar. Começaram a achar que o tempo e o universo estavam enganados e que elas não pertenciam uma a outra. As metades começaram a temer que tanto atrito, tanto choque pudesse partir seus corpos antes que elas voltassem a encaixar. A dor de seus corpos trabalhando se tornou insuportável. As pedras partes de um corpo só se viam sozinhas quando estavam juntas. Seus corpos que não encaixavam virou o símbolo de uma solidão acompanhada. Estavam lado a lado mas não conseguiam se tocar. As pedras que antes preferiam sofrer juntas a descansar separadas passaram a duvidar se algum dia voltariam a ser uma só. Elas já não sabiam se algum dia voltariam a ser uma só.
Um dia uma grande tormenta se colocou sobre as duas metades. Elas tentaram se segurar uma a outra, até que um raio iluminou o universo e as pedras se viram uma vez mais. Naquele momento elas souberam que nunca mais seriam uma, que eram estrangeiras e que não pertenciam mais uma a outra. Naquele momento a energia que as mantinha unidas com tanta força se quebrou, libertando-as do campo magnético que as envolvia, aproximava e protegia. Naquele momento e elas mais uma vez se separaram. Esta separação não foi com um choque como o que dividiu a pedra única tantos tempo antes, mas uma separação lenta. Cada uma das metades foi carregada pela água da chuva em direções opostas. As duas metades ficaram se olhando lentamente, como querendo guardar na memória para sempre aquele momento de despedida. As duas iam embora com a certeza de que aquela oportunidade jamais voltaria e que a outra metade levava embora com sigo a sua esperança de ser inteira outra vez.


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