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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Farol


Nua


I´m Not There


Times Like These






Um Novo Sol

É como se acordasse. Como se uma cortina se abrisse. Como se a nevoa que cobria meus olhos tivesse se dissipado. Por trás da nevoa brilha um sol infinito e, na água, seu reflexo atinge uma gama de tonalidades que eu nem sabia existir. Sinto-me como se me descobrisse daltônico na fase adulta. Pensava saber e sentir, conhecer a paleta que a vida oferece. Estava certo de que em cinquenta tons de cinza se ia do ultravioleta ao infravermelho.
Um toque, um sorriso, um afago. Singularidades que quando combinadas em um só botão as capazes de despertar a alma de um homem. E começou como que um formigamento que iniciou pela boca é desceu por dentro do corpo até o estomago. Ali as borboletas se tornaram pássaros verdes, que voando em círculos produziam um agitamento gelado de emudecer a alma. O frio que iniciava na barriga tomava o corpo, mas na forma de um calor confortável e aconchegante. Este antagonismo de sentidos produzia uma sensação de plenitude antes desconhecida.
O corpo todo sorri: os braços enroscados, sorriem. Os olhos levemente contraídos sorriem. Os pelos ouriçados sorriem. E os lábios, maestros deste ato também sorriem.
Volto a contemplar as cores novas, os tons mais violáceos e de forca mais brilhante. Um raio de sol encontra meus olhos me banhado com uma sensação nova em uma experiência antiga. Como se agora eu fosse digno de recebe-o por ter coração para senti-lo.
Puxo com forca o ar para dentro de mim, e minhas narinas são tomadas por um cheiro liquido que escorre por mim até que esteja impregnado em todas as paredes do meu ser. O cheiro é doce e suave, mas mesmo assim de uma intensidade impar de forma a se ter certeza de senti-lo e não apenas percebelo. É como se descobrisse o cheiro do Sol.  Um perfume que sempre esteve ali, mas que eu jamais havia percebido por estar cego. Preocupado demais em dominar a visão de seu contorno para me deixar ser invadido por ele.

Estou desperto. Olho para trás e posso perceber que sonhava em preto e branco, estando a viver como um cachorro. Lembrando de Orfeu vejo no que eu pensava ser cor: espectros, e eles me abanam. Meus fantasmas quase que parecem sorrir como suas mãos acenando em um badalo de despedida. Como eu, eles sabem que cruzei um arco sem volta, e jamais estaremos juntos outra vez.  Eu jamais poderei voltar ao que antes chamei de mundo, ao que antes chamei de eu. É como se houvesse novamente sido picado por uma cobra, e uma substancia doce e revitalizante se espalhasse por minhas entranhas. Agora sigo a serpenter sem certeza do destino, mas sabendo que caminho em direção ao sol,] que a cada passo se revela mais colorido e perfumado.

Um Mergulho em Mim

Uma receita,uma guia de acoes,um plano de acao para os proximos 30 dias,at least

O cenario: insatisfeito com o rumo das operacoes.cansado de ser o dudu,figura certa da noite.cansado de ser um morcego albino,com olhos opacos de gelatina e pele fria.cansado do gosto de cinzas.

Antes eu esperava que alguem viesse a me acordar,me salvar deste limbo morbido no qual eu flutuava.cansado de esperar decidi tomar as redeas da situacao,e cortar minha propria floresta de espinhos. Decdidido a chegar a terra prometida pego o mapa para atravessar este deserto,mesmo que sozinho.

Vejo que a chave da torre esta em meu bolso,e se nao esta,so eu posso me tirar de la.a agonia de esperar a salvacao esta me matando.nesta passividade sera q n me assemelho aos judeus que nos triliches superlotados esperavam passivamente uma ajuda aliada que nao vinha,enquanto suas vidas se esvaneciam por seus dedos?

Decidido a tomar a redia da situacao,a poder morrer com a certezas de nao ter arestas,eu renasco.assumo um plano de gestacao para renascer.no more masks.saio do armario aonde eu me escondia com tantos gays,mesmo que nao me sinta como eles..me assumo como alien social que sou,e para o ceu olho com esperancas de que alguem nao me ache tao estranho.

Espero ser uma fera reconhecida por uma bela.tiro o capuz que esconde minhas estranheza e deixo os transeuntes se chocarem.sou o que sou,pois nao tenho outra opcao.se nao for o que sou viverei morto.

Pela primeira vez sei que vou voltar a respirar.

Eu sei por onde esta caminhada sera retomada.sei que sem isto nao posso continuar.espero que minhas pegadas passem a ser quadrupedes,mas mais do que tudo,sei a direcao q elas vao apontar"

Tua Nudez

Tu vives nua, flutua por entre os homens completamente despida.
Tua nudez não é vulgar, não é promiscua e não é para chamar a atenção. Na verdade, como poderia, tu es nua. Tu sempre estiveste nua.
Como Eva antes do pecado, tu não sabe da tua nudez, este é teu estado natural, este é teu estado mais puro. Nasceu assim, nua, e assim segues em cada um dos teus dias.
Adão correu para se cobrir, pela primeira vez, quando deixou de ser puro. Com plantas, e hoje roupas, ele tentou esconder a vergonha de seu corpo. Mas o que esconder em um corpo que não tem vergonha?!
Um corpo que não tem vergonha, não é um que não tem do que se envergonhar é um que simplesmente não a tem. E o que é a vergonha se não o arrependimento? E porque haveria de ter arrependimento aquele, que mesmo quando errou, sabe que fez o melhor que pode naquele momento?! A culpa e a martirização não fazem parte de ti, porque tu perdoa tanto que perdoa a ti mesmo. Perdoas, pois o coração sem culpa não reconhece a maldade, perdoa porque sabe que quem mais sofre é o que pecou. Perdoas, pois tu es perdão.
Os que se vestem são aqueles que provaram do pecado, aqueles cuja vergonha reflete em seus olhos. Apavorados e assustados eles se cobrem, de medo de serem reconhecidos. Mal sabem eles que tu nãos os vê. Tua nudez os agredi. Teu corpo desnudo é a prova cabal do pecado deles. Com raiva de si mesmo eles te atacam, te destratam e te maculam. Contra ti investem todo o ódio que sentem do próprio corpo.
Tu não te cobres. Não entendes os ataques, sente arder os golpes, mas teu sorriso de paz não se desfaz e tu não te vestes. Tu segue caminhando. Às vezes, em uma voz calma ate perguntas aos céus porque dos ataques, mas não te contentas com as respostas vazias e segue sorrindo.
Alguns não notam a tua nudez. Passam por ti inertes, como espectros que são. Te olham mas não te vem. Seus olhos opacos pousam sobre ti enquanto te miram, mas não reconhecem o próprio corpo, então não reconhecem o teu. Não descobrem a tua nudez, e assim são menos afortunados ainda que os raivosos, pois não podem contemplar-te. Neles tu não despertas nenhum sentimento, pois estão mortos.
Tua nudez encoraja. Outros vêm no teu corpo, no teu sorriso no teu olhar, uma esperança. Um grito silencioso na multidão que diz que seus corpos são lindos. Que diz que não é preciso alimentar-se de culpa e vergonha. Tu podes não notar, ate eles podem não notar, mas deixam seus ombros fica levemente a mostra quando te vem.

Teu corpo passa a ser seu templo, sua adoração. Jamais poderás ser representada tampada em nenhuma imagem, pois isto seria negar o que esta sendo representado. Tu es nua, tu es beleza, tu es coragem de se ser o que se. E eu sou todos eles.

Tua Morte

Hoje vieram recolher teu corpo que já cheirava na sala. Você estava penteada e maquiada a lhes esperar, com a comida a esfriar a sua frente. Esqueceram de me avisar que estavas morta, ou me esqueci de ouvir.
Durante estes dias que te achei mais calada e fria, me perguntei se não poderia ter feito mais para te salvar. Se o que te levou foi doença, assassinato ou suicídio.
Me lembro de quando começaste a morrer. Foi pouco a pouco, como se teu sangue estivesse a pingar em nosso tapete branco. Primeiro olhei para outro lado, depois elogiei tua palidez.
Enquanto eles carregavam teu corpo para fora, eu me sentia um assassino. Sentia tua morte em minhas costas a me esmagar com o peso da solidão, e quis te trazer de volta.
Pensei que tua doença poderia ter cura. Que poderia haver médicos que pudessem ter te salvo para mim. Será que eu não poderia ter te colocado sobre os ombros, enquanto havia tempo, e procurado pela cura? Mas lembrei de que não tivemos tempo o suficiente.
Pensei que poderia ter de salvado pela fé. Buscado os mais poderosos xamãs, exorcistas e curandeiros para que curassem tua alma e me devolvessem teu espírito. Mas lembrei de que eu não tinha a tua fé.
Pensei que eu poderia ter te contaminado. Que através de nosso amor meu ser podre tivesse penetrado o teu, e te preenchido com a podridão de meu veneno. Mas me lembrei de que não sofríamos dos mesmos sintomas.
Pensei que pudesse ser assassinato. Pude ver o corpulento assassino na calada da noite a te espreitar. Puder ver ele te atacar, enquanto eu não estava lá para te defender. Como teu homem eu tinha de te proteger. Mas me lembrei de que só deixei o teu lado quando tu pediste.
Pensei no impensável suicídio. Pensei que eu pudesse ter deixado teu mundo tão escuro, que tu tenhas desejado troca-lo pelo breu eterno. Eu teria de ter feito da tua vida dia, e te salvo da noite. Mas lembrei de que eu tinha os braços queimados de carregar o sol para ti.

Tentando entender a tua morte, eu abraço a minha. Sinto meu peito molhado a escorrer. Olho para baixo me vejo empapado de sangue. Há um punhal cravado em meu peito. A máo que segura a lamina não é de outro, mas a minha e a tua entrelaçadas.

Te Esquecer

Se eu pudesse, será que te apagava? Me pergunto se apagaria de minha existência todo traço de tua passagem. Esqueceria completamente teu nome, meu sentimento e nossa vida.
 Se te fizesse sumir eu apagaria a dor da tua ausência, o sangue de tua traição, me livrando da faca que atravessa minha garganta. A dor abandonaria meus ossos e eu poderia voltar a andar.
Os cinco sentidos voltariam um a um, do mais sutil ao mais denso, me devolvendo o perfume do ar, o toque de uma planta, o som dos pássaros, a beleza das águas e o gosto da vida. Por ultimo sumiria o daltonismo em que tu me deixaste, e eu voltaria a ver o arco-íris.
Mas será que a dor que sinto não é um preço pequeno a pagar pela alegria que me lembro? O sentimento do momento presente passa em um segundo, mas a marca de um sorriso profundo fica gravada para sempre. Será que eu trocaria minhas ricas memórias pelo alivio da dor?
A dor era o lado escuro de uma lua cheia, que iluminou a noite em que eu vivia. Apesar de não vê-la eu sabia que ela estava lá a me espreitar, a se esconder todo dia sob a luz onipresente do Sol. Ela me assusta, mas não me surpreende.
Sem a dor eu deixaria de ser quem eu sou. A dor faz parte da pessoa que sou hoje, e tentar apaga-la seria negar minha própria existência. Covardes seria se amasse o ontem e desejasse o amanha. Se sou o que sou, estou no hoje com o ontem na cabeça e o amanha no olhar. E o meu hoje é dor.
Tua passagem mudou o que sou, e apagando a tua existência apagaria as mudanças em mim, andando para trás em uma via de mao única.  Teria de preencher o vazio das tuas memórias com tecido adiposo que eu retiraria em abundancia de minhas memórias.  Preenchimentos falsos para uma vida vazia é o destino dos que fogem da dor.
Sou o que sou. Sou dor e sou lembrança de sorriso. Não te apago, mas preencho os vazios que tu deixaste com lagrimas, e me afogo neste oceano.





Quando as Mascarás Caem

Nada mais triste que a decepção. Nada pior do que ver que você foi enganado. Que você enganou a si mesmo. Que se deixou enganar. Que quis se enganar.
Quando a mascara derrete, e o rosto lindo se transforma em uma escarra nasce a decepção. No mesmo ritmo que derrete o rosto antes angelical, derrete meu coração. O coração que antes era quente e de veludo, agora está frio e ressecado. Dentro dele o espaço antes preenchido pelo amor agora torna-se um infinito buraco negro.
O amor sai em forma de liquido a brotar dos meus olhos. A dor me escorre o rosto, antes estampado com um sorriso eterno.
O amor nos leva as alturas, nos faz voar pelo mundo. A decepção derrete nossas asas em pleno voo, e sorri ao nos ver cair. A dor da queda é maior que a dor do impacto. Os segundos de queda livre se multiplicam para sempre, e jamais chegaremos ao chão. Não existe o misericordioso impacto para terminar o medo da queda.
Enquanto despenco, deixo lagrimas pelo caminho. Na solidão do ar ninguém pode ouvir meus gritos, e então eu urro. Do fundo de minha alma emito o mais horrendo dos sons, o grito de um animal ao ser abatido.
A decepção derreteu meu coração como um acido e agora permeia pelo meu corpo, correndo cada parte como a querer acabar comigo. Sinto a dor em minha alma de quem foi traído.
A pergunta que não tem resposta não poderá deixar de ser feita: “Por quê?”.
Eu que fui só amor, eu que fui só carinho, eu que fui só cuidado. Eu merecia um espelho.
Fui enganado. Fui pego em uma armadilha como um animal, enjaulado como um animal e maltratado como um animal.
Me convidaram a correr no campo de primavera, me indicando o caminho e eu fui. A grama verde se abriu sob meus pés e me vi no fundo de um grande buraco. Machucado olhei para cima, a espera de quem lá me havia levado, a espera de uma corda, a espera do amor.
A encobrir a longínqua luz que vinha da superfície vi o rosto tão amado. Eu gritava por socorro e apenas era contemplado por aqueles olhos tão familiares. O silencio era ensurdecedor. Me perguntei se eu poderia ser visto, só poderia ser esta a explicação para não ser ajudado. Então eu vi o sorriso. A maldade, a loucura, o desdém, todos disfarçados atrás do amor. Amor sem limite, que engole, que devora, que instrumentaliza, que rasga a alma e a carne.
Quando eu vi o rosto ser trocado pelas costas, eu entendi que estava só. Entendi que minha queda não era fruto do acaso. Eu havia sido atraído, empurrado, aprisionado, dominado. Agora eu estava impotente, abandonado, sem saída.
Sentado no fundo do meu poço eu tinha as roupas rasgadas, o rosto molhado de lagrimas e o corpo empapado de sangue. Minha alma chorava e meu coração sangrava. Senti uma sensação nova, como se expelisse algo por todos os poros de meu corpo. Pensei que a vida me abandonava, mas era o amor que me deixava.
Senti meu coração secar e o veludo se tornar uma couraça. Envelheci sentado no fundo de meu poço. Fechei os olhos e esqueci.


Por Mim Corri Atrás da Tua Estrela

Um cego, caminhando na escuridão.  Um dia me dei conta que não lembrava mais do meu próprio rosto. Faziam tantos anos que não me via, que minha própria imagem se desfez. Um vazio muito grande, e um senscao de abandono tomaram meu corpo. Corri as mãos para meu rosto, mas elas estavam tão calejadas que não pude nem senti-lo.
A dor me acordou. Minha consciência demorou mais que meu corpo para se dar conta disto, de que uma era de trevas havia tomado meu tempo e que agora ela cessava. Eu sabia que tinha de acordar daquele sonho onde corria perigo, acordar antes que arma apontada para mim fosse disparada e eu ficasse no sonho para sempre. Como no pior pesadelo eu gritava para acordar, consciente de que aquela não era minha realidade.
Neste momento lembrei de um brilho. Um brilho intenso e quente que senti uma vez. Lembrei de uma estrela que de tão perto que cheguei me queimou. Corri a mao para a cicatriz que a queimadura deixou, e lembrei do calor, e pude senti-lo percorrer meu corpo uma vez mais. Novamente eu era jovem e ainda era dia. O lembrança do sorriso fez minha boca projeta-lo involuntariamente, e aquela sensação de calor fez algo brilhar em mim. A forca desta memória adormecida fez minha aura brilhar, e criar luz naquele breu que cada vez fechava mais.
Eu estava no escuro, e nele vivi muito tempo. Como uma marmota que se esconde, meus olhos se acostumaram ao breu, e botar a cabeça para fora do meu mundo não so me cegava como assustava.
Neste labirinto tão simples a saída esta sinalizada para todos sobre a porta, mas os cegos miram apenas os próprios pés, vendo nada alem da sarjeta. Instintivamente corri meus olhos para o céu lembrando e lembrei da estrela cadente riscando o céu. Como o grão de areia sonhei que poderia alcançar a estrela, e corri, perseguindo seu riscado.
Eu corria com todas as forcas que tinha em meu corpo cansado, mas a distancia entre nos apenas aumentava. Eu sabia que esta distancia não iria diminuir, mas isto não me fazia parar de correr. Sonhava que minha forca tornaria minhas pernas tão rápidas, que a energia cinética emanaria um brilho que faria a estrela se ver em mim.
Eu sabia que la de cima a estrela não me via. Sabia que a forca de minhas pernas não empurraria a terra com tanta forca a ponto de algum dia alcança-la, mas corria com cada vez mais forca. Quando nem meus olhos a alcançavam segui correndo atrás dela, como se pudesse alcacala.
Calculista por treinamento, sempre sube que não a alcançaria, mas nunca deixei de correr. Corri por mim, não por ela.
Na escuridão que eu me encontrava eu precisava encontrar um guia, uma forca que me tirasse de la. Um desejo que me fizesse sentir-me vivo para querer acordar. A memória do teu corpo foi a lembrança que escolhi para me tirar do inferno. Me agarrei com tanta forca a esta memória que projetei a tua imagem no céu, e a persegui como uma estrela guia. A luz que fez de ti uma estrela cadente foi minha mente projetando iluminação para o caminho que eu tinha de seguir para acordar de meu próprio pesadelo.
Não te inventei, apenas te resgatei do fundo de uma memória. Perdao se de alguma forma te usei, mas saiba que te homenagiei.
Como um vampiro meu espelho não tinha mais reflexo. Eu vi minhas fotos e eu não estava la. Eu não sabia mais a minha imagem. Como um monstro cubista eu tinha mil ângulos, e imagens, sem nenhuma verdadeira.
No escuro nada se vê, então como ver o próprio reflexo na superfice que mais engana? Dizem que o amor é verse refletido em outra pele.  O porblema é que quando não se reconhece a própria imagem fica impossível encherga-la em um corpo estrangeiro.
Quando eu vi que não tinha imagem, e tive de escolhe-la, peguei a mais bonita que eu conhecia: a tua. Se apaixonar-se é se ver refletido em outra pele, decidi apaixonar-me por ti, pois isto faria de mim tão lindo quanto tu. Decidi que tu eras eu, para que eu pudesse ser tu.
Quando nem meus olhos alçavam a tua luz mais, tive medo de parar de correr. Tive medo de que a luz que brilhava a minha volta, esta aura quente, se apagasse quando eu parasse, e as trevas me abraçassem novamente. Tive certeza de que a luz que me iluminava vinha do teu corpo, então segui correndo.
Milenios depois que tua luz não estava em meu campo de visão mais, corri mais devagar. Olhei para baixo e pude ver meu corpo novamente. Olhei com mais atenção e pude perceber que a luz que o iluminava era um tom violáceo que eu jamais tinha visto. O tom com sopros de dourado era extremamente familiar, apesar de não lembrar dele. Primeiro notei que a cor não se parecia em nada com teu brilho. Pensei ser o reflexo dele, maculado por minha superfice imunda. Olhei com mais profundeza e vi que este reflexo de nada tinha de sujo. Minha pele nua sob ele, reluzia e não estava encardida.
Enquanto prestava atenção em minha própria luz, meus passos perderam intesidade e sem me dar conta parei de correr. Oberservei minhas mãos e pés, dos quais saiam faxos de luz da extremidade de cada dedo. O tempo deixou de existir e me dei conta que havia parado de correr. Meus olhos correram o céu, procurando teu riscado para seguir, mesmo que jamais fosse te alcançar, mas nem teu rastro mais estava ali.
Olhei a minha volta e era dia. Um lindo relvado se estendia sob meus pés e perto dali um rio cantava. Meu corpo não brilhava mais e o brilho havia se espalhado e floresta brilhava a minha volta.
Olhei para o céu, e agradeci aquela estrela que imaginei correr os céus, para que eu pudesse me guiar para fora de minha própria escuridão, do inferno que construi para mim mesmo, e que so eu poderia me tirar.
Eu estava tao perdido que precisei te amar para me salvar. No fundo do posso onde eu estava tudo era escuridão, e eu precisei seguir uma estrela cadente para ter forca de correr de la.
Mas nunca esqueça, que mesmo tendo inventado o amor que senti, foi a lembrança do teu calor que me deu forca para criar e correr. Tu me salvou, mesmo tendo morrido muito antes de eu te enterrar.





Perdao as mulheres que machuquei

Juro que não fiz por mau. Meu desejo nunca foi  te machucar. Nunca pensei em te magoar. Nunca sentei na minha cama e pensei como te magoar. Como te ferir, como te fazer chorar, como te fazer amaldiçoar o dia que decidiu me dar uma chance. Como eu poderia quer machucar a ti? Logo a ti que eu tanto queria proteger, a ti que eu queria que fosse minha dupla, meu esteio, minha rainha. Como eu poderia planejar te magoar? Para te agradar eu passei por cima ate mesmo de mim! Para não te fazer sofrer eu deixava de agir como eu queria, eu deixei de ir embora quando não queria mais ficar apenas para não te fazer sofrer. E pensar que eu que não suportava ver tuas lagrimas fui o motivo de tantas delas. Eu que tinha vontade de te abraçar quando ouvia por tudo que tu passou, te fiz passar por tanto mais. Mas o que eu quero que tu entenda é que não fiz por mal.
Eu não tinha consciência do que fazia. Eu sou uma pessoa boa, meu coração é puro e eu busco ser ético, justo e bom para o próximo. Não fiz por mal, nunca quis te magoar. Tu me conhece, eu sou aquele por quem tu te apaixonou. Tu já olhou nos meus olhos e viu o que tenho dentro de mim, então tu sabes que eu não faria isto. As vezes parece que não fui eu. Eu não seria capaz desta atrocidade a ninguém, e muito menos a ti que eu me preocupava tanto.
Tantas vezes eu já me perguntei porque ajo assim. Será que para provar minha masculinidade? Provar que posso ser o macho alfa e liderar a matilha? Será que para provar que sou mais homem e mais capaz que meus companheiros? Será que preciso provar que posso ter a mulher que eu quiser?
Ou será então que me gozo vem do limite? Será que a minha necessidade é viver no risco eminente de ser pego?
Será que o que eu quero é te humilhar? Te expor perante aqueles que tu mais gosta? Sim, pois nunca me bastou aprontar, eu precisava ser mau. Precisava te expor.
O mais nojento era que depois de cometer as maiores atrocidades eu não me cobria de vergonha, mas de um certo orgulho que me fazia contar a varias pessoas o que eu havia feito. Eu não fazia por mim, fazia pelos outros. Fazia para que soubessem que eu fiz. Será que eu fazia para que tu soubesses que eu fiz?
O que eu queria com tudo isto?Te machucar? Queria que tu descobrisse para dar um fim a uma historia que eu não conseguia terminar?
Quantas vezes olhei nos teus olhos e jurei que jamais te faria mal. Jurei ter nojo dos homens comuns com seu egoísmo chovinista que tratavam mulheres como objetos. Eu olhei nos teus olhos e menti, porque acreditava em cada palavra do que eu dizia. Por isto tu acreditou em mim e por isto eu fui tão nojento.
Foram tantas maldades. Mentiras, amigas, lugares que disse estar e nãos estava, minhas próprias amigas, tua família, brincadeiras na tua frente quando a única que não sabia era tu, risadas pelas tuas costas. Tenho vontade de vomitar ao ver estas palavras frente aos meus olhos. Pensar nas coisas que fui capaz. Que sou capaz.
As vezes penso que não fui eu, foi ele, o menino, o moleque, o irresponsável, não eu. Como se fosse outro que vivesse dentro de mim e que viesse a tona as vezes. Um alguém sádico, egoísta e simplesmente, mau. Mas não posso esquecer que ninguém vive dentro de mim se não eu mesmo. Este alguém sádico sou eu, mesmo que parte do meu eu. Eu não posso mata-lo, nem suprimi-lo para ser o bom samaritano. Ele sai quando é muito reprimido. Quando calo minha vontade interior submetendo minha existência ao desejo do outro, e não ao meu, ele vem como um chicote. Como um chicote que vai e tem que voltar, mas ai o faz com muito mais força. Já aprontei porque não queria mais estar contigo e tu não deixava ir embora. Eu não me deixava ir embora me submetendo ao teu desejo e não ao meu. Entao o menino mau saia de dentro de mim e te dava o troco. Quando tu me fazia sentir inseguro, uma merda, um pedaço de lixo o menino mau vinha e te dava o troco. Quando tu me fazia sentir que eu deveria agradecer todos os dias por estar ao teu lado o menino mau ia e te mostrava que muitas queriam a honra de estar ao meu lado. Eu deveria ter ido embora antes, ouvido o egoísta e não ter o ignorado para que eles precisasse gritar para ver que ele existia . Eu não deveria ter compactuado com as agressões que tu fazia a ele, pois assim eu sou tão culpado quanto ele pelo revide que ele te dava.
Será que é uma revanche de um menino gordinho? Será que fiquei fadado a insegurança e o medo da rejeição. Será que a rejeição me marcou tanto que não posso ver uma oportunidade de gritar que sou homem, que sou pegador e que sou o mais foda, o macho alfa que preciso atacar?Será que sou vitima ou presa?Será que faço por insegurança?
Será que faço para dizer que não me importo contigo? Será que minha bondade que tanto escondo é meu maior medo? Será que tanto te fiz sofrer para dizer que sou mau, que não presto e assim justificar o dia que tu me deixar? Sabia que tenho certeza que tu vai me deixar? Sabia que dou graças a deus de tu não te dares conta de quão maravilhosa e forte tu es, pois neste dia tu não iras me querer mais? Será que te faço sofrer antes que tu me faças?
Ou o maior de todos os meus medos, será que simplesmente eu faço porque sou mau? Será que toda esta bondade que eu tento emanar é a mascara de uma pessoa má e egoísta? Será que te machuco simplesmente porque gosto das tuas lagrimas? Porque gosto de sentir o cheiro do teu sofrimento?
O que sei é que nada sei. Não sei porque faço, simplesmente faço. Não posso culpar a bebida que me afogo sempre, e que acompanhou tantas destas maldades, porque todas elas passaram por momentos de sobriedade anteriores a consumação da maldade. Eu poderia ter evitado, eu sabia o que ia fazer antes mesmo de erguer o primeiro copo, e mesmo assim não parei. Mas juro que não fiz por mal.
Não sou mais um muleque. Sou responsável pelos meus atos. Sou responsável pelo efeito dos meus atos em outras pessoas. Sou responsável por proteger aqueles que mais amo. Sou responsável por proteger a ti, minha flor. Sou responsável por cada parte do meu corpo e alma. Eu sou um e todos. Sou o doce, sou o inseguro, sou o gordo traumatizado, sou o rejeitado, sou o postulante a macho alfa e sou o menino egoísta. Todos eles sou eu. Todas as razoes fizeram meus erros. Nao posso culpar a ninguém pelo que te fiz, a não ser eu mesmo. A culpada não foi ela, que nada te devia, mas eu. A culpada não foi tu pela posição que me botou, por mais humilhante e vil que tenha sido, porque eu me deixei colocar e gozei com isto. O culpado sou apenas eu.

Entao, meu amor, imploro o teu perdão. Me perdoa porque não sei o que faço. Te faço mal porque sou fraco, não porque sou mau. Quero ser melhor, me esforço todo dia para ser melhor. Estar ao teu lado me fez crescer e ser melhor. Errar contigo me fez mais forte. Tuas lagrimas que arrancaram as minhas me fizeram crescer. Obrigado por me ajudar. Obrigado por entender como sou fraco. Obrigado por me perdoar.  Um dia uma mulher vai te agradecer por ter feito de mim um homem, mesmo que esta mulher sejas tu. Mas acredita em mim quando digo que não foi por querer.

Pedras

No começo dos tempos as pedras se formaram. Neste momento existia uma pedra completa e que se bastava. Um dia esta pedra foi atingida por um raio vindo dos céus que a separou em duas metades iguais. A separação foi perfeita, sem que nenhum fragmento da pedra inteira houvesse se perdido. As duas metades eram uma o negativo da outra, um encaixe perfeito e que juntas ainda formavam a pedra inteira, robusta e completa. Mas o mesmo terrível raio mandado pelo universo que dividiu a bela rocha original não se contentou em rasgá-la ao meio e quis separá-la. Com o impacto de sua forca ao dividir a rocha suas novas metades, de encaixe perfeitos foram separadas por alguns centímetros. Esta pequena distancia que as separava que poderia ser quase imperceptível para alguns fez com que estas duas metades esquecessem que a outra existia, e que virassem seus olhos para o resto do mundo. O tempo, senhor de todos os destinos, agiu sobre estas pedras. Esta pequena distancia entre elas mudou todo o seu destino. Uma metade foi carregada pela chuva, que passou próxima da outra metade mas a deixou ali. A outra metade também não ficou parada e foi carregada pelo tempo e o universo por outros caminhos. O tempo fez com que os elementos do universo trabalhassem estas pedras aparando suas arestas e mudando sua forma, fazendo com que elas se parecessem diferentes. Mas  o tempo e o universo não tiveram forças para mudar o que estas pedras eram. Sua composição química, seu DNA e sua energia não pertenciam ao tempo e nem todos os choque que ele colocou nos caminhos das metades da pedra poderiam alterar o que estava abaixo da superfície. Tanto tempo se passou desde a separação original que as pequenas metades nem mesmo lembravam de sua historia. Elas não sabiam o que lhes faltava, mas sabiam que algo faltava. Estas metades sabiam que eram diferentes das outras pedras a sua volta. Sabiam que algo lhes faltava com um eterno vazio sem que entendessem o que este sentimento era ou o que o preencheria. Estas pedras tentaram ser pedras comuns e ficar nas pilhas de pedras que se vêem por ai, mas elas simplesmente não se acomodavam no monte. Estas pedras tentaram se encaixar em outras pedras, procurando posições de conforto onde estivessem seguras e protegidas, e não mais sozinhas. Mas nada disto parecia funcionar. Os encaixes com pedras comuns a principio pareciam dar certo e traziam paz, mas o tempo trazia de volta o sentimento de vazio colocando as metades novamente na estrada na busca do que elas não sabiam o que era.
As pedras não são como pecas de um quebra cabeça de arestas grandes e definidas que tem um par certo a ser encaixados e jamais se encaixarão ao par errado, as pedras são mais complexas. Mais fáceis e mais difíceis de encaixar. As pedras parecem ter feições simples, de forma que podem ser mais fáceis de encaixar. É fácil colocar uma pedra ao lado de outra sem que haja rejeição. Assim este par de pedras pode combinar e conviver em harmonia e paz. Mas as pedras são muito mais complexas. As pedras tem ranhuras e arestas tão detalhadas e tão  perfeitas que não podem ser vistas a olho nu. E estas arestas são as pontas que devem ser encaixadas para se ter o perfeito encaixe de uma pedra.
As duas metades seguiam separadas pelo tempo e o universo, sempre sendo trabalhadas, desgastadas e mudando. Um dia o universo fez com que estas duas metades de um só corpo se encontrassem. As duas metades se reconheceram no instante que se tocaram e sabiam que eram apenas uma. Cada molécula de seus corpos parecia reconhecer o seu par e sua energia as fazia saber que aquele momento era sublime.As duas metades sabiam que a sua frente estava o seu destino e a resposta de suas perguntas. Naquele momento as duas metades sabiam que tinha encontrado seu encaixe perfeito. Então, as duas metades jogaram seus corpos um contra o outro buscando o encaixe.Mas o encaixe não veio. As metades se assustaram. Como seria possível elas que eram apenas uma não se encaixarem mais?Como seria possível que este encontro que elas esperaram por todo o tempo fosse em vão? Como elas continuariam sua existência sem a sua metade?Isto era impossível, então as metades acreditaram que era uma questão de se posicionar. Elas mudaram de posição por tantas vezes procurando uma formula que fosse o encaixe perfeito, mas o encaixe não vinha.
As duas metades entenderam então que elas haviam mudado. Apesar de pertencerem uma a outra seus corpos não mais se encaixavam. As experiências que passaram e o efeito do tempo e do universo os tornaram seus corpos estrangeiros um ao outro.
Mas o que o tempo fez, o tempo poderia desfazer. Se elas comprimissem seus corpos com tanta forca um contra o outro e esperassem o tempo agir ele as faria voltar a encaixar e elas voltariam a ser uma só. O que as duas metades não sabiam era da dor.Elas eram pedras rígidas e muito duras. Para transformar sua forma o tempo e o universo demoraram séculos. Agora elas precisariam agüentar séculos de desencaixe até que voltassem a pertencer uma a outra com perfeição. As duas metades se mantiveram juntas pois iriam agüentar o desconforto do desencaixe por saber que pertenciam uma a outra. Que sua aura era uma só e que elas precisavam uma da outra para serem completas.Apenas elas eram compatíveis, apenas elas era da mesma espécie.
 E elas sofreram.O tempo fazia com que elas se mexessem agredindo uma a outra com suas arestas. As pedras usaram a fricção de seus corpos para se polirem, conhecendo cada molécula do corpo da outra para saber se encaixar melhor. Mas a cada desencontro, a cada ranger de suas pontas tão diferentes, a cada choque seus corpos doíam. As pedras antes tão decididas e tão senhoras de seu destino começaram a fraquejar. Começaram a achar que o tempo e o universo estavam enganados e que elas não pertenciam uma a outra. As metades começaram a temer que tanto atrito, tanto choque pudesse partir seus corpos antes que elas voltassem a encaixar. A dor de seus corpos trabalhando se tornou insuportável. As pedras partes de um corpo só se viam sozinhas quando estavam juntas. Seus corpos que não encaixavam virou o símbolo de uma solidão acompanhada. Estavam lado a lado mas não conseguiam se tocar. As pedras que antes preferiam sofrer juntas a descansar separadas passaram a duvidar se algum dia voltariam a ser uma só. Elas já não sabiam se algum dia voltariam a ser uma só.
Um dia uma grande tormenta se colocou sobre as duas metades. Elas tentaram se segurar uma a outra, até que um raio iluminou o universo e as pedras se viram uma vez mais. Naquele momento elas souberam que nunca mais seriam uma, que eram estrangeiras e que não pertenciam mais uma a outra. Naquele momento a energia que as mantinha unidas com tanta força se quebrou, libertando-as do campo magnético que as envolvia, aproximava e protegia. Naquele momento e elas mais uma vez se separaram. Esta separação não foi com um choque como o que dividiu a pedra única tantos tempo antes, mas uma separação lenta. Cada uma das metades foi carregada pela água da chuva em direções opostas. As duas metades ficaram se olhando lentamente, como querendo guardar na memória para sempre aquele momento de despedida. As duas iam embora com a certeza de que aquela oportunidade jamais voltaria e que a outra metade levava embora com sigo a sua esperança de ser inteira outra vez.


Os Monstros da Noite

A noite é quando os monstros acordam. Quando o silencio é total posso ouvir seus gritos em sussurros. Quando o breu domina posso ver seus rostos a se retorcer. Posso senti-los acordar nas profundezas do meu peito. Quando nada a minha volta se move, posso sentir suas mãos calejadas e unhas compridas acariciar minhas entranhas.
No ultimo suspiro do dia, quando estou para encerrar o hoje e transitar para o amanha é que eles aparecem.  Os monstros são seres das profundezas, e jamais ascenderão. O corpo ereto é algo no qual eles jamais poderão se mexer então agarrados ao ser eles se escondem. Mas no corpo deitado, em posição de morte eles podem se movimentar. Rastejando, se arrastando eles se deslocam como cobras, deixando um traço de sujeira e podridão pelo chão que escorrem.
Quando fecho meus olhos, posso sentir claramente que eles começam a se mexer. Como se pudesse ouvir o ar se mover ao primeiro e mais sutil de seus movimentos. Sinto-os acordar quando eu deveria adormecer, e sinto sua pútrida respiração dentro de meu peito.  
 O primeiro ataque é através dos brônquios tirando o ar dos pulmões. A respiração fica difícil e entrecortada, como a experenciar a sensação de morte por asfixia. Atacam logo no ar, a fonte de vida que se renova a cada ciclo, como se a atacar o sopro de vida.
Dominados os pulmões eles escorrem para a barriga. Gelam as paredes do estomago, fazendo-o quase a encostar nas costas e tocar a espinha por onde o frio erradia. É como se esvaziassem todo o estomago, tirando dali todo o alimento que manterá o corpo vivo.
Ainda no tórax eles sobem para o coração. Não chegam a ataca-lo, mas o espreitam. O coração símbolo dos sentimentos e da vida não é tocado, mas cercado. Toda sua existência é coberta por uma espessa nevoa com a cor dos maus presságios. Isolado o coração, maestro e ditador do ritmo dos demais, são senhores do corpo.
Com o coração em suas maos, partem para a ultima defesa fisica e atacam os braços. Símbolos da forca e do trabalho, também se tornam seus vassalos e sob suas ordens as mãos começam a tremer, perdendo sua destreza e vitalidade. Mesmo que os braços jamais poderão tocar á criaturas do medo e do interior, dominam-os quase que para zombar do individuo.
Corpo dominado eles se arrastam para cima, fechando a garganta. Atacando o canal que simboliza a ligação da mente e do corpo, fechando-o quase que por completo. Por ali nada há de passar, sem lhes pagar tributo. Eles passam a decidir quanto e quem pode passar pelo estreito que agora é de seu domínio, e em sua fome de dominar os demônios continuam a subir.
Chegam ao seu objetivo: o cérebro. Onde moram as ideias é que está o verdadeiro domínio. Os demônios não se contentam com pouco e nada mais lhe serve alem do domínio total, atirando o individuo a escravidão da loucura. Pela garganta eles sobem sorrateiros, um a um. O primeiro a desembarcar traz os primeiros temores. Os medos começam a desestabilizar as defesas, e mais demônios chegam. Plantam duvidas e semeam a desconfiança, para colher seu alimento: a agonia. Agoniada a mente o corpo se inquieta e se revira na cama. Sacode a cabeça como se por chacoalhar pudesse derruba-los, fazendo-os escorrer pela garganta e cair de volta no peito, onde se pode fechar o calabouço e tranca-los novamente. Mas a cada milésimo no cérebro os demônios enfiam seus pés como raízes nas entranhas da carne das ideias.
Como uma destocar as raízes é a parte mais difícil, e os demônios serão podados, até cortados, mas muito dificilmente destocados. Achar suas raízes sem tronco será difícil o bastante, destoca-los quase impossível.
Instalados nas ideias, festeando no seu carnaval de agonia eles se refestelem enquanto o individuo se mexe na cama. Temeroso o individuo cai em um sono agitado, e o cérebro desliga. Então começa o verdadeiro combate, a ultima instancia: demônios e o inconscientes.
 Os demônios já fortes e alimentados se preparam para enfrentar o inconsciente, senhor dos sonhos. Durante horas que podem durar séculos o inconsciente irá trazer a tona as lembranças e desejos que fazem o individuo ser quem ele é. Os demônios reconhecem o inconsciente com parte deles, sabem que são feitos da mesma carne e partilham uma única alma. Eles se reconhecem e rolam abraçados, a se amar e digladiar. De seu sangue derramado o individuo ira criar sonhos. Memórias de uma vida que nunca houve, criada a partir dos medos e desejos mais esquecidos e renegados. O mais puro dos desejos, a mais fértil imaginação irá nascer deste encontro e será chamada de sonhos.

A luz da manha irá encontrar o rosto do individuo a sorrir ou se contorcer. O sol juiz da vida irá terminar a batalha, espantar os monstros para seu calabouço, mas jamais mata-los. Durante o dia eles seguirão dentro do individuo, em silencio. Eles ficarão quietos para que o pobre ser possa fingir ignora-los e tentar se misturar a multidão, mas ambos sabem que quando a luar banhar o mundo e o corpo voltar a sua posição de descanso eterno eles voltarão a assombrar sua existência. 

Nossa Posição

No futebol clássico como na vida, as pessoas vem em pares. Um precisa do outro, um tem seu seu espelho e seu par.
Nao poderiamos ser goleiros. O goleiro é solitário, ninguem lhe entende. Sofre sozinho e leva culpa sozinho. Quando os outros comemoram ele esta sozinho. Goleiros vivem nos extremos, heróis ou vilões em questão de segundos. Gelados ou elétricos, loucos em sua essência. E sós, extremamente sós.
Jogam apenas 11, e um desta dupla será banido. Seguirao sempre juntos, ambos indispensáveis, mas goleiro pode jogar apenas um. O outro será sempre suplente. Sua alegria so pode existir na ausência do outro. Seu companheiro será sempre seu maior rival. Seu melhor amigo será sempre aquele que mesmo com remorso irá se alegrar de sua desgracá. Não poderíamos ser goleiros.
Não poderíamos ser zagueiros. Os zagueiros vivem apenas para destruir. São duros e vivem do enfrentamento. Seu único papel no jogo é evitar a criação, destruir a arte, blindar o universo do gozo do gol. Os xerifes não podem sorrir e se alimentam do medo.
Apesar de existirem  em duplas os zagueiros não tem o nosso espírito. Uma dupla de zagueiros fala o tempo todo. Precisam gritar para sincronizar seus movimentos. Sempre desesperados para evitar o pior eles se chocam constantemente. Grandes e atrabalhoados a dupla muitas vezes parece não falar a mesma língua. Dois destruidores jamais poderiam construir algo novo. Não poderíamos ser zagueiros.
Não poderíamos ser laterais.  Os laterais não tem alma. Seu universo é a margem do mundo, vivendo pelas beiradas. Não são os guardiões de nada, apenas complementos na vida dos outros. Laterais vivem de migalhas, protegidos por uns e serviçais de outros. Não existe sangue no olho de um lateral.
A dupla de  laterais vive nos opostos do mundo, e nunca se encontram. Entre seus universos existe um oceano de zagueiros a lhes separar. A dupla de laterais é triste. Pela distancia um jamais irá ouvir o outro, mas precisam se conhecer. Devem ter o entendimento apenas pelo olhar. Saber aonde o outro vai estar, para definir seu movimento, sem jamais poder toca-lo. Para um atacar, o outro deve defender. Devem estar sempre em balanco, em perfeito equilíbrio mas sempre opostos, sempre distantes. Não poderíamos ser laterais.
Não poderíamos ser meias.  Meias são astros, e estrelas são egositas. Os articuladores  vivem para ser protagonistas, senhores do universo. O time gravita em volta deles, todos a pedir a bencao de seus pés a carimbar a bola.  O maestro que postado a frente dos músicos orienta o andar da carruagem, mas sem emitir uma única nota. Seu local é so seu, e sua posição é a frente dos demais, dando as costas para o mundo. O seu momento é o drible, mesmo que não seja produtivo. O seu momento é um passe que irá ser valorizado mais do que o gol. Os meias são criadores levianos. Cigarras cantando sem pensar no inverno. O astro jamais se sacrifica. Correm quando lhes convem, quando a bola se atira em sua direção, ou se projetam a frente a sua espera.
Nunca se ouviu falar em dupla de meias, apesar de como todos outros viverem aos pares. Não existe dupla sem comprometimento, sem entrega, sem parceria, sem doação, e isto não faz parte do vocabulário dos meias. Um serve o outro pelo brilho pessoal, não pelo outro. Eles se encontram, flertam um com o outro em suas tabelas e lançamentos, mas jamais passará disto. Não poderíamos ser meias.
Não poderíamos ser atacantes. Atacantes são definidores. Atacantes são matadores de aluguel. Atacantes são seres frios. O atacante passa o jogo todo a esperar, aguarda o bote do qual se alimenta. Dele sai o grande momento do espetáculo: o gol. Seu nome estará nos jornais. Quem não conhece o jogo, irá sempre se lembrar dos atacantes. Todos vivem para servi-los, empenhando seu suor para que eles executem o gran finale.  Atacantes são incompletos. Sacis que em uma perna so atacam apenas. Não jogam o jogo todo, mas lampejos de intensidade e depois se apagam. Não correm o campo todo, mas apenas a parte que lhes interessa. Tiram o marfim e atiram o elefante ainda sangrando para que outros carreguem.
Os atacantes jamais são semelhantes em suas dupla. Dois atacantes iguais não combinam. Opostos jogam juntos. Um que corre, um que briga. Um que serve, um que e mata. Um que prepara, um que define. Um que usa a cabeça e um que usa os pés. Não existe igualdade, jamais poderá existir amor. Não poderíamos ser atacantes.
Só podemos ser volantes. Os volantes são o coração de um time. Os volantes são o símbolo de uma equipe. Os volantes são o motor, o dínamo da aceleração. O coração ditando a velocidade do corpo. A tambor a ditar o compasso da musica. Os volantes estão pelo campo todo. Não existe tarefa que o volante possa dizer que não é sua. De área a área, de bandeira a bandeira, o volante esta presente. O volante tem de atacar com a mesma gana que defende. Tem que criar com a naturalidade que destrói. Quando os atacantes precisarem ele tem de estar lá a lhes apoiar. Quando houver um defensor subjugado ele deve aparecer. O volante carrega o piano, e se faltarem músicos pode ser escalado em qualquer lugar da orquestra.

Não existe dupla mais bonita que a de volantes. Eles não tem função especifica, são complementares. Um deve estar aonde outro não pode estar, ocupando o vácuo deixado de sua ausência. Podem atacar juntos, ou defender juntos. Podem atacar porque sabem que o outro esta a lhes proteger, e podem marcar pois sabem que poderão contar com o outros a lhes levar para frente. Podem estar separados cada um fazendo uma função, mas sabem que sempre voltarão para perto um do outro. A jogada se desenha de forma imprevisível, e a dupla pode correr junto ou se despercar mas assim que a bola sair, eles estarão lado a lado novamente.  Só poderíamos ser volantes. Só poderíamos jogar em dupla.

Muito Pouco Muito

Quando o pouco se torna muito e o muito se torna pouco.
1 mês, 30 dias, 168 horas , 10080 minutos , 604800 segundo. Muito
0,001% da vida.1/3 de uma estação. Meias férias de verão. Nada.
Em um mês nada acontece. Em 30 dias tudo aconteceu.
Parece que foi ontem que se iniciaram tamanha a felicidade que foram preenchidos.
Parece que foi a mil anos que se iniciaram tamanha a intensidade que foram transcorridos.
Tanto e tão pouco. Em tempo, nada, mas em vida se torna tudo.
Tempo preenchido com carne, flores e vida. Forças que transcendem o relógio a ponto de resignificar o entendimento do próprio.
O tempo não existe, se torna vassalo desta magnitude com cheiro de mais.
Se o “á tanto tempo” ainda está fresco, o que se esperar do “por vir”? Se o presente dura uma vida, como não ansiar pelo futuro?!
O passado já não existe, e o futuro, deus da incerteza, está banhando de luz.
Quando o pouco se faz muito, resignificando todo um ser, ele volta a ser pouco.
Quando o muito ainda é pouco, o ser se cobre de ânsia pelo depois, e um, é tomado por uma sede de mais. Uma fome de sorvir todo o muito, pela certeza de que ele sempre será pouco.
O tempo não existe. Segundos e rugas não podem observar sua passagem, pois neles não cabem: o pouco e o muito.

Que o transcendido Tempo, entenda: abençoe o pouco, para que ele se torne muito de muito.

Minha Casa

Quando eu era pequeno, muito pequeno, me mostraram a foto de uma casa, e disseram que ela era linda. Eu aprendi que aquilo era linda, e que aquele era o maior desejo que se podia ter, e a desejei.
Um dia eu abri meus olhos
Séculos haviam se passado enquanto eu dormia, mas eu lembrava de tudo. Eu  havia aprendido a construir e decidido que para mim eu iria construir a mais bonita das casa.
A casa era perfeita. Toda de pedra, forte, ampla, robusta, alta, uma verdadeira fortaleza. E delicada! Após o amplo pe direito triplo vinha um lindo telhado com madeira e vigas aparentes segurando as mais belas telhas, e sobre toda a sala um grande telhado de vidro. A decoração era impecável, os mais lindos moveis, as mais lindas flores, limpa, perfeita. E então pensei o quanto deveriam ter sido séculos felizes...
Comecei a andar pela casa e vi o mais desejado dos bolos, o que curaria qualquer destempero. De tão lindo que resolvi morde-lo, ao levar o tão maravilhoso bolo a boca senti gosto de cinzas. Mas como poderia, o mais lindo dos bolos, o mais desejado dos bolos ter tanto desabor? Olhei de novo a minha volta para me certificar que eu estava acordado, então desesperado corri para o ramo das mais lindas flores que estavam no belíssimo vaso de cristal em cima da mesa e aspirei seu perfume: nada, elas não tinham cheiro de nada. Apertei-as contra o meu rosto, para senti-las despedaçarem-se conta minha carne e saber que elas estavam vivas, mas então entendi: eram flores de plástico.
Assustado deixei meu corpo cair sobre o sofá: uma peca linda, convidativo só de olhar. Tão lindo que não dava vontade de sentar de tão perfeito. Mas sentei, e quando deixei meu corpo escorrer, me lembrei mais. Lembrei dos convidados, das festas e das pessoas.
A casa estava sempre cheia, copos tilintando em brindes e gargalhadas se misturavam a musica que nunca cessava. Lembrei dos sorrisos fáceis, dos beijos e das garrafas de champagne. Lembrei do som da minha gargalhada ecoando nas impecáveis paredes de pedra nuas. Então, ainda no sofá, me preparei para me alegrar com esta memória, mas não veio esta sensação, e sim outra lembrança.
Lembrei de logo que a casa ficou pronta, do dia que vim para ca. A mudança estava feita, tudo estava em seu devido lugar, as flores já estavam ali, as fotos nos porta retratos, o perfume colocado e a casa me esperando, a mudança já estava feita. Me lembro de sentar neste mesmo sofá, me lembro ate o que eu vestia, impecável. Foi ai que aquilo aconteceu.
Do canto da casa, por entre aquelas paredes tão solidas, crescia uma planta. Fiquei chocado como aquela maldita planta havia se intrometido na casa dos meus sonhos. Como não havia sido prevista ou controlada a planta?Sem demoras abri o local aonde as facas deveriam estar, e claro que la estava, peguei a mais afiada das adagas e cortei a maldita.
As festas vieram, os convidados, as convidadas e um dia durante a maior das festas, conversando com a maior das convidadas eu a vi novamente: a maldita planta. Indignado, envergonhado não sabia o que fazer me desculpem com meus convidados, que educados diziam que não viam nada, e como disfarçavam bem, eu poderia jurar que eles realmente não a viam. Mas eu via, e eu a odiava. Minha festa acabou naquele momento, na primeira oportunidade a destrui.Com fogo e ferro a ataquei, derrubei a parede por onde ela entrava, fogo no solo onde nascia, o que era aquela maldita planta que ousava destruir a perfeição da casa que construi para o meu sonho?! Maldita! Ela nunca mais iria voltar.Jamais!
Mas eu estava errado. Em uma semana eu a vi novamente, mas o que tomou conta de mim não foi o ódio, foi outra coisa, mas não soube dizer o que. E eu não a ataquei, decidi que eu não havia a visto. Ela não estava ali, aquilo não era lugar de planta, porque ela estaria ali?
Na festa seguinte alguns convidados que antes não viam a planta me avisaram que crescia uma nojenta planta na sala da casa,eu prontamente os expulsei, pois apenas loucos poderiam ver plantas onde não havia nada.
Quando não haviam convidados eu observava a planta com o canto do meu olho, tinha medo dela. Não sabia que planta era aquela, do que ela era capaz, o que aquela erva daninha poderia fazer com a estrutura do meu palácio.
Um dia, muito tarde da noite, algo me atacava o peito. Fechei todas as cortinas da casa, mesmo que fosse escuro, e fui ate o canto da sala. La estava ela, muito maior que quando havia a visto da ultima vez, não conseguia olhar fixo para ela, mas ela estava ali. Corri para cozinha procurando um regador para ajudá-la a crescer, pois precisava ver que planta era aquela, mas nesta casa não havia com que se regar. Desesperado, baixei minhas calcas e reguei a tal planta. Lembrei então da sensação quente que percorreu meu corpo a partir do regador, e lembrei-me do que eu fiz então.
Neste dia eu decidi aumentar a casa: construiria outra casa, subterrânea, embaixo da grande fortaleza. Iria encontrar a raiz de todas as plantas. No meio da sala abri um calabouço: desta vez não utilizei minhas equipes e assistentes, cavei sozinho. De minhas ventas brotava suor em gotas de sangue, e a dor de minhas mãos era uma sensação maravilhosa. Cavava durante a noite, escondia a terra nos bolsos para tirá-la pouco a pouco, assim os convidados não notariam a mudança. O grande alçapão no meio da sala eu não consegui cobrir, não havia coberta tão grande e não tive forcas de escondê-lo. Em todas as festas eu tinha medo que o vissem, mas eles passavam reto, não o viam. Eu não entendia como poderiam não se dar conta, estava abaixo de seus grandes narizes! Ate que eu vi que alguns deles passavam por cima do abismo, sem que por ele fossem sugados! Eles simplesmente caminhavam no vazio, presos por suas mentes que por acreditar que o chão era solido só mantinha na superfície.
À noite eu cavava cada vez com mais vontade. Cada camada de terra que saia era uma nova descoberta. Ate que meu porão teve espaço suficiente para eu estar dentro dele. Tive prazer em estar ali, senti um calor naquela terra úmida que eu sabia que já havia sentido, mas fazia tanto tempo. Aquela sensação foi tão boa que trouxe uma das cadeiras da área de serviço para o calabouço e ali fiquei. No outro dia trouxe um manto furado para servir de tapete, e todo dia eu cavava um pouco daquele lugar horrendo.
Em pouco tempo o buraco já era uma sala nojenta, úmida, com moveis pobres. Me esforcei para lembrar do cheiro. Me preparei para sentir náusea, afinal o lugar deveria ser fétido, mas o cheiro era algo inexplicável. Um cheiro quente e doce, apenas palavras não olfativas poderiam descrever aquele cheiro. Lembrei então o que houve com as paredes. Independente do quanto eu cavasse as paredes rapidamente eram tomadas pela planta que invadia a casa, entendi porque ela subia com tanta facilidade. A casa havia sido construída sem fundação, sem alicerce. Um grande aterro havia sido feito sobre o nascente desta planta. Eu sabia que toda nascente precisava de água, então continuei a cavar. Eu seguia cavando com medo. Sabia que a estava em baixo da casa, e tinha medo que se cavasse demais ela fosse desmoronar. Como eu poderia destruir aquela casa tão linda? Quantos não sonharam com aquela casa? Quanto eu não sonhei com aquela casa? Eu deveria estar louco. Eu pensava, mas eu cavava. Não era eu que cavava, mas minhas mãos, meus corpo. Tinha medo por meu porão também. Um lugar desamado que eu havia encontrado, e ali ficado, cavar era arriscá-lo também. E se eu o destruísse? Se ao ver o que tinha no fundo dele eu não o amasse mais? Mas eu cavava.
E eu lembrei o que aconteceu: água. Uma nascente linda, um poço da mais cristalina água. Eu lembrava dela, do gosto dela. Completamente nu mergulhei nela e ali fique um tempo, lembrando desta sensação, eu havia estado ali já, há muito tempo, e durante muito tempo, e que saudades eu tinha dela.
Foi então que ouvi barulho, os convidados chegavam e eu estava nu. Eu estava molhado, eu estava sujo. Em pânico eu corri, rezando pelo perdão de todos eles, mas quando eu cheguei la em cima, eles pareciam não notar. Sorriram para mim, me abraçavam, sem ver que eu estava nu e molhado, como se eu fosse um deles.
Eu estava em choque, havia entendido que era diferente, havia entendido que a planta havia vindo me buscar, que eu pertencia a ela, e nos pertencíamos a água. Olhei para os meus lindos convidados e seus rostos derretiam, suas peles se mostravam cheias de feridas e os dentes haviam caídos, eles que eram tão lindos. Olhei para a planta e ela estava olhando para mim. A linda planta estava gigantesca, corria por toda a sala exalando seu perfume quente e úmido.
Olhei de novo e vi que os convidados haviam ido embora, alguns assustados, outros apenas seguindo os que iam embora, e alguns eu havia expulsado. Então eu vi melhor, alguns seguiam ali. Estavam sentados, e brincavam com a planta. Eu não os havia visto, logo eles, que eram sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair, a acariciavam e lhe chamavam pelo nome. Ouvi vozes então, e vi que alguns deles estavam na sala em baixo da sala, e que esta tinha a entrada cada vez maior. Olhei bem para eles e por seus sorrisos e mão calejada lembrou que tinha me ajudado a cavar, sem dizer muito, apenas sorrindo. Nos seus sorrisos vi que não haviam perdido os dentes. E sua pele reluzia linda contra o sol. Mas que sol era este? Um raio de sol entrava pelo amplo telhado de vidro e vim iluminar a nova sala, então eu olhei para cima e vi que a antiga sala já não existia mais. A entrada do antes calabouço havia crescido tanto que a sala de cima, desmoronou. Me preparei para chorar pela sala perfeita e sua mobília estonteante, engolidas agora, mas meu coração cheio de alegria não conseguia chorar.

Acordando do meu transe olhe em volta, e a casa não estava ali. Eu estava sentado na nova casa. A fortaleza sem alicerce havia desmoronado quase inteira. A nova casa não tinha paredes, e era cercada de muito verde, uma grande floresta da planta que nascia em meu coração de água. Olhei para o céu, e vi que agora sim, eu estava em casa.

Não Peço Muito

Peço que me trate bem
Peço que seus olhos brilhem ao meu ver
Peço que tenha bom coração
Peço que seja meiga
Peço que seja linda
Peço que seja bem humorada
Peço que seja inteligente
Peço que seja descolada
Peço que seja culta
Peço que elegante
Peço que seja leve
Peço que seja cheia de vida
Peço que se permita ser boba
Peço que de risada
Peço que confie
Peço que ame alguma coisa
Peço que ame os animais
Peço que ame o mundo
Peço que ame gente
Peço que goste de esportes
Peço que goste de aventura
Peço que goste de comer
Peço que goste de beber
Peço que goste de sofá
Peço que goste de filme
Peço que goste de casa
Peço que goste da rua
Peço que goste de praia
Peço que goste de serra
Peço que goste de campo
Peço que tenha um trabalho
Peço que tenha um passado
Peço que tenha um sonho
Peço que tenha amigas
Peço que tenha a mente aberta
Peço  que se interesse pelo que eu gosto Peço que confie em mim Peço que diga que me ama Peço que me ame Peço que me de paz Peço que me de colo Peço que me de por que lutar Peço que me de certeza Peço que me de forca Peço que me de tesao Peço que me de medo de perder Peço que eu não queira mais nada Peço que me ache o máximo Peço que me de confiança Peço que tope qualquer coisa ao meu lado Peco que se interesse pelos meus amigos Peço que me ilumine a sala quando entra


Peço muito
Ofereço muito

Desejo muito"

Carta de Adeus

Antes de mais nada quero te pedir para ler este email até o final, pois gostaria que tu soubesses o que eu penso. Não espero resposta, apenas queria que tu soubesses alguma coisa.
Tu é uma pessoa maravilhosa. Tu tens uma garra fantástica. Tu sabes o que tu queres e tu vai em linha reta atrás disto, sem piscar. Mas isto não significa que tu passas por cima de ninguém, tu jamais faria isto. Tu tens um coração de ouro. Tu te importas com os outros, defendendo aqueles que tu nem conhece e pensando nos desabrigados em um dia de chuva. Tu tens um coração de ouro, e este é o melhor elogio que eu sei fazer. Por estas características eu sei que tu és uma medica fantástica mesmo sem nunca ter te visto trabalhar.
Tu és muito intensa. Não existe meio termo pra ti. Quem é teu amigo tu amas quem não é tu não quer por perto. Tu não fazes as coisas pela metade, o que tu decide fazer tu te entrega de corpo e alma. Vejo isto no teu trabalho, vejo isto nas tuas amizades e vi isto em nós. Tudo isto te faz uma mulher inteira, completa e forte.
O que nós tivemos foi muito intenso. Desde a primeira vez que ficamos tu não saiu da minha cabeça um instante. Era um sentimento que nem eu entendia direito de precisar estar contigo o tempo todo. Quanto mais eu te conheci mais eu te admirei e mais tive vontade de estar ao teu lado. Te achei bonita quando te conheci, mas parecia que cada dia eu te achava mais linda. Quando me dei conta eu estava completamente entregue e apaixonado por ti. Queria estar ao teu lado todo o dia e me imaginava ao teu lado por muito tempo.
 Com o tempo começamos a ver que não éramos tão parecidos como pensávamos, tínhamos reações parecidas, mas comportamentos diferentes e até formas de ver a vida diferente. Comportamentos de ambas as partes começaram a nos irritar e foram minando nossa convivência. Nosso dia a dia ficou brigado, e nossa convivência não era boa. O amor que a gente tinha era tão grande que tantas vezes tentamos dar um jeito nisto. Mas não conseguimos.
Quando terminamos me senti um fracasso. Senti que tinha fracassado o que eu queria tanto. Senti que tinha apostado em um projeto que estava fadado ao fracasso desde o começo e aquilo me devastou. E meti o pé pelas mãos.
Quando tu foi embora da minha casa naquela sexta feira eu sabia que tinha chegado ao fim uma das coisas mais maravilhosas que eu teria em toda a minha vida. Sabia que durante muitos anos eu pensaria se não podia ter tentado um pouco mais, cedido um pouco mais ou se não valia a pena agüentar as brigas para ter alguém tão maravilhosa do meu lado. Sabia também da tua força de vontade e que tu não irias voltar. Tu sabes como eu me sentia em relação à forma como tu me vias, e a tristeza que me deu na quarta-feira anterior quando me dei conta que tu não me admirava. Sabia que o motivo das brigas que acabaram com o nosso namoro sem acabar com o sentimento era que tu não achavas as minhas atitudes dignas de quem está ao teu lado. Todos estes sentimentos me fizeram meter os pés pelas mãos. Eu estava no fundo do poço. Se eu tivesse a maturidade que eu gostaria, eu teria ido para a casa dos guris conversar ou até ficado sozinho com a minha dor. Mas meu inconsciente escolheu o caminho que parecia mais fácil. Troquei as lagrimas por álcool e a solidão do meu quarto pela solidão maior da noite. Acho que de alguma forma eu queria surtar para não ter que encarar a tristeza que estava dentro do meu peito. Foi o meu jeito de lidar com a minha dor, mas eu me esqueci de ti. Enfiei os pés pelas mãos e não me preocupei com os sentimentos da pessoa tão maravilhosa a ponto de me fazer sentir daquela forma por ela estar saindo da minha vida. Nunca quis te expor, mas sei que naquele momento não te protegi. Agi de forma egoísta e irresponsável e nunca vou me perdoar por isto,
Eu fico imaginando tu chorando, tu sofrendo, tu sozinha na tua casa, tua contando pras tuas amigas, eu afetando o teu trabalho que eu sei o quanto é sagrado pra ti, como tu te sentiu quando ouviu da tua mãe o que eu tinha feito e eu não consigo me perdoar por ter te feito te sentir assim. Tu que me fez um bem tão grande, eu te fazendo sofrer.
Das nossas diferenças eu sai uma pessoa melhor. Tuas criticas que primeiro me atingiram como laminas e que reagi com patadas, eu absorvi. Pensei nelas, refleti sobre elas e cresci através delas. De algumas delas eu tirei mudanças ou desejos de mudar, de outras sai mais forte conhecendo melhor a mim mesmo.
Me relacionar contigo me ajudou a me conhecer melhor. Te tive como exemplo em coisas que quero mudar na minha vida. Tive no nosso relacionamento modelo de coisas que eu quero ter na minha vida. Hoje dentro do teu carro eu aprendi contigo.
Eu não consigo descrever em palavras o que eu senti dentro do teu carro. Primeiro uma alegria imensa que me encheu os olhos de água de te ver chegando à minha casa mais uma vez, o que eu achei que nunca mais veria. Junto com este sentimento uma melancolia de pensar que talvez fosse a ultima vez que eu fosse te ver entrar aqui. E o pior é saber que nada eu podia fazer com este sentimento, pois não podia te pedir para ficar porque não daria certo.
Quando tu me contaste como foi há tua semana e o que tu sentiste, vi o tamanho do estrago do que meu ato de inconseqüência fez na pessoa que mais me importava naquele momento. Eu não tinha nada para dizer, tu tinhas toda razão. Um moleque, isto que eu fui. Tu usaste esta palavra com muita propriedade, pois é dela que eu tenho fugido tanto. Eu fui um moleque durante muito tempo, e hoje não sou mais, mas naquele momento foi exatamente o que eu fui. Eu me envergonho da forma que agi. Gostaria de ter agido diferente, fui egoísta e pensei apenas em lidar com a minha dor sem pensar em ti, e por isto eu nunca vou me perdoar.
Tu é maravilhosa. O que tivemos foi sublime. Eu aprendi contigo todos os dias. Me orgulho de ter te tido do meu lado. Quero te agradecer por cada dia, por cada segundo e por cada palavra. O que tivemos não morreu, segue dentro de mim e vou sempre levar comigo.

Não espero teu perdão, nem que tu entendas o que eu fiz ou porque eu fiz. Rezo para que a raiva e a magoa um dia passem para tu possa olhar para trás e para mim com um sorriso de uma boa lembrança.

Amor da Minha Vida

Eu não consigo desistir de nós dois. Não sem, pelo menos, antes lutar um pouco. O que nos temos é algo lindo, único e raro, não vamos jogar fora.
Eu reagi da forma errada. Quando vi nos teus olhos e gestos descontentamento, me apavorei. Disse que eu era assim mesmo e que se tu não gostasses não poderíamos ficar juntos. Eu errei em não lutar por nós dois, em não pensar em como eu poderia ser melhor para ti, em não pedir para que tu ficasses. Quero corrigir isto.
Se sou infantil, como uma criança chamando a atenção?! Sim,as vezes um resquício de Peter Pan emerge. Te prometo tentar controlar, quero ser homem para merecer ter uma mulher que nem tu do meu lado. Se minhas brincadeiras cansam?! Tenho certeza que sim, nunca vou deixar de fazê-las mas posso maneirar para que na dose certa elas te façam rir. Amo te ver rir e sorrir. Se somos diferentes?! Sim, mas cresço e aprendo com nossas diferenças e tenho certeza que podemos fazer dar certo. Me encontra no meio do caminho. Se eu escorregar, conversa comigo, me fala que incomodou, e vou me esforçar para não acontecer mais. Não quero que a gente pense SE vai resolver, mas COMO vai resolver. Tu é minha certeza.
As vezes tu me perguntava como eu seria daqui um tempo, se eu ia querer voltar para festa, beber mais, agitar e por ai vai. Eu sou o cara que tu conheceste, e que tu te apaixonou. Já fui tudo isto, mas por mim já tinha deixado de ser, pois não me fazia mais feliz. Ao teu lado e na nossa paz eu encontrei uma felicidade que a muito tempo eu não sentia. A muito tempo eu não me sentia tão eu mesmo. Me apaixonou mais ainda que tu faz de mim um homem melhor. Não fica com medo de eu mudar, eu sou o cara que ama dormir abraçado em ti, acordar cedo e dormir no teu ombro, deitar na rede, brincar com cachorro, namorar, ir para praia, ir montar, e principalmente, ser teu namorado. Tu é uma pessoa maravilhosa e eu me orgulho de estar ao teu lado.
Dá uma chance para nós dois. 
Aposta em mim. 
Não larga da minha mão. 
Volta para mim. 
Não me larga nunca mais.
Te Amo.

A Porta

Um homem bate a porta onde responde uma mulher:
Ela –  Quem é?
Ele –   Sou eu.
Ela – Eu quem?
Ele – Nao sei
Ela – Seu eu nao sei quem voce é, porque eu abriria a porta
Ele – Voce esta sozinha?
Ela –  Sim, não há ninguem comigo
Ele – Entao abra a porta para mim, eu realmente quero entrar
Grita uma vizinha - Não abra para a porta, não para ele.
Ela – A porta sempre esteve aberta
Com cuidado ele testa a maçaneta e realmente esta aberta, ele deixa a porta encostada, sem abri-la
Ela – A porta nunca esteve fechada – disse ela novamente
Fitando a porta ele pensou que talvez nunca tivesse tentando abri-la. Ele que durante tanto tempo sonhou transpor somente esta porta. Tinha certeza de lembrar dela trancada. Devia ser sua visão que andava cada vez mais embaralhada, ou sua memória que parecia não ter o que guardar. Olhou com mais foco para a porta que ele havia deixado entreaberta, como a se certificar de que tinha sido real. Como uma coragem que ele não sabia de onde tirou escancarou a porta e invadiu o aposento correndo.
Ela não via nada, e muito menos entendia. O estranho que ela deixou entrar em seu mundo era apenas luz. Luz que ele fazia questão de emanar, cegando-a os olhos a ponto de ela não poder vê-lo.
Ela – Nao me cegue, quero ver-te
Ele – Cega-la ? estas louca?
Ela – Fale comigo, quero escuta-lo não só ouvilo.  
Ele – Limpe suas orelhas pois estou a falar.
Ele então pode vê-a: envergonhado e ate assustado ele cobriu os próprios olhos e estendeu a ela um manto.
Ela – Para que isto? Não entendo.
Ele – Estas nua, eu te vejo.
Ela – Eu nasci assim, disse ela com naturalidade.
Ela precipitou-se a porta
Ele – Aonde vais?
Ela – Fechar a porta para nos proteger.
Ele – Nao feche tenho medo.
Ela – Se voce quer ir embora, pode ir.
Ele – Eu quero muito ficar, mas deixe a porta aberta.
Ela – Por favor, preciso ve-lo. Se revele a mim.
Ele – Se não me vês, es cega.
Mas ele sabia que se escondia naquela escuridão disfarçada de luz. Ele fechou os olhos e usou toda forca do seu ser para se mostrar, lutou contra tudo que lhe segurava, demolindo as barreiras que havia construído com tanto suor e lagrima. Depois de segundos de eternidade ele abriu os olhos para que pudesse ser visto.
Em vez de um sorriso ele fitou a escuridão do aposento vazio: ela não estava mais ali. Ele se olhou e viu que como ela, também estava nu. Procurou-a desesperado para em fim mostrar sua nudez, provar que eram iguais.
Mas na eternidade que ele tomou para se revelar, ela saiu pela mesma porta que ele havia implorado para manter aberta para nunca mais voltar.


A Ponte

Me lembro perfeitamente a primeira vez que a vi: alva e brilhante a outra margem do rio. Tao próxima e tão distante. Suas feições eram delicadas, e minhas narinas foram invadidas pelo cheiro de pureza que eu podia captar com meus olhos. Meu coração e olhos estavam cheios deste ser que nem ao menos tinha nome.
Diante de tanta pureza, senti vergonha de minhas roupas sujas e apenas não corri porque minhas pernas não me obedeciam. Era como se pelo efeito dela tivessem se enterrado ao chão como raízes. Nossos olhares se cruzaram e eu em um misto de esperança e falta de opção: sorri.
Ela sorriu. Com elas sorriram os pássaros, as folhas das arvores e o vento. O frio que correu minha espinha começa pelo rio sob meus pés e terminava em seu sorriso. Como se nossos olhos estivessem amarrados os olhares não desgrudaram. Seu sorriso perfeito, alinhado e branco refletia o meu canino e cheio de dentes.
 O rio e a distancia abafariam nossas vozes então nem tentamos falar, nossos olhos e sorrisos falavam por nós. E gritavam, em um sussurro que o mundo todo podia ouvir. Em contemplação passamos 3 dias e 3 noites. Eu temia me mexer, desamarrar nossos olhos e cair do céu.
A angustia já me matava, e caçador que sou, tive que me mexer mesmo que tomado pelo medo. Me levantei, e ela se levantou. Ela anuía com minha visita e mais: convidava. Sem certeza do que fazia passei a construir uma ponte. Uma ponte entre dois mundos. Um ponte sobre um rio de forca que separava os mundos desde sempre.
A construção da ponte revoltou meu povo e minha velha mãe veio a meu encontro. Falou das diferenças entre os povos, me pediu que fosse normal e buscasse uma do meu próprio tipo. Eu havia conhecido todas as minhas semelhantes em uma só, e optado pelo exílio da solidão por não suportar mais aquela musica de uma única nota.
Senhor de meu destino, fiquei com os conselhos, enxotei os que não apoiavam e continuei a trabalhar. Dia e noite vivi para aquela ponte. Em cada momento do meu dia construía a ponte. Cada movimento de caça, cada moeda, cada gota de suor era aquela ponte.
Ela seguia a me apoiar. Seu olhar macio seguia cravado no meu, como a me apoiar. Seu olhar cada vez mais era doce, como se não visse o sangue em minhas mãos, ou a sujeira que o povo depositava a meus pés.
A mãos calejadas já tomavam vida própria e construíam a ponte mesmo quando eu descansava. Ate que  ponte alcançou a outra margem. Com medo, ansiedade e tesao coloquei meu pe direito na ponte. Levantei os olhos e na margem oposta ela fazia o mesmo. Comecamos a caminhar a passos lentos que se transformaram em galope ate que nos encontramos no meio da ponte.
Quao mais perto eu chegava mais via sua delicadeza. Quao mais perto eu chegava via tudo menos eu mesmo. A pele branca, os ossos finos e marcados, os dedos longos. A voz lírica que massageava meus ouvidos.
Meu medo virou confiança quando mais de perto pude ver seus olhos cheios de admiração, e meu medo se transformou em forca. Ela me tomou as mãos escondidas as costas e beijou minha alma. A ponte que nos unia a orgulhava, e olhávamos desafiadores aos nossos povos, estrangeiros de um ao outro que lotavam as margens da ponte sem ter coragem de pisa-la.
Sobre a ponte vivemos, nos alimentando de amor. Na ponte nos conhecemos e mergulhamos um no outro. 3 meses de dias e 3 meses de noites passamos em nossa ponte.
Neste tempo o medo foi passando. Quase esquecíamos que éramos estrangeiros. A principio acreditamos que em nosso entrelaçar de almas fosse alterar nossos corpos e fossemos nos assemelhar. Mas não aconteceu, nossas diferenças seguiam iguais, afinal éramos carne, e carne é imutável. Trouxemos conosco os hábitos de nossos povos, e todos os dias os juntávamos em um caldeirão para preparar o jantar.
Nosso exílio obteve o respeito dos povos e passamos a receber oferendas as margens da ponte. Nossos reis vinham a nos com provas da legitimidade de nossa ponte. Prontos para viver no exílio não sabíamos como reagir as portas abertas e passe livre para transitar pelos mundos. De mãos dadas caminhamos por ambos os mundos, mostrando um ao outro lugares antes vistos apenas em livros. Eu voltava todos os dias encantado, apaixonado por um mundo que se abria e me ensinava. Minha caça e minha alma saiam mais ricos de cada novo passeio. Eu via em cada nova fruta um novo sabor, e novo conhecimento. De seu mundo eu trouxe a doma, o domínio do rio e a arte. Em meu mundo eu buscava mostrar a elas as pedras que construíam o meu ser, na esperança de admira-la e que ela escolhesse as que lhe coubessem.
O novo me encantava, mas eu não esquecia de onde meus pés haviam se tornado raízes. Eu era o que era, e carregava comigo o meu povo. Quase antropofágico eu me alimentava do novo pra fazer um velho melhor. A corte de meu rei clamava por mim todos os dias, com medo de que eu os abandonasse. Eu na gritava de volta, não precisava, eu era um deles e sabia disto.
Uma noite vi que a ponte começava a ruir. Eu havia construído a ponte para um breve encontro, e mergulhada na paixão jurávamos o temporário permanente. Abracado em suas inocência eu temi pela ponte.
Ainda abraçado em seus cabelos de lírios lembrei da primeira vez que a tive em meus braços. Seu corpo frágil parecia que quebraria, se eu apertasse. Suas mãos que seguravam as minhas eram de uma maciez imaculada. Eu amava a sua inocência e temia ela. Sabiam que aquelas mãos jamais iriam construir pontes comigo e que sua alma jamais suportaria a morte da caça. Sabia que durante todos os dias eu teria de proteger aquele corpo delgado como o cão que eu era. Uma lagrima brotou de meu olho esquerdo, e engoli-a para que em seu gosto salgado eu repetisse a promessa que havia tomado meu coração.
A temporaria ponte não mais suportava, e precisávamos torna-la permanente. Eu sabia que não havia lugar para nos em nenhum dos mundos. Ao cruzar a fronteira nos tornamos subversivos e cidadãos do mundo, cães sem pátrias. Ainda éramos bem vindos, mas na forma dee diplomatas, convidados para sentar em todas as salas mas sem nunca passar da parte social das casas. A pia de loca suja e a intimidade do quarto não nos queriam em nenhum dos mundos. Abandonavamos o passado para abraçar o futuro.
Comecei a projetar, não uma ponte mas algo maior. Uma ligação de terra, permanente e eterna, nosso próprio mundo um estreito unindo os mundos que nos originaram. Ligando as duas margens mágicas no local onde nasceu o nosso amor. Exatamente no meio do caminho seria construído um grande totem, com o que cada um de nos escolhesse trazer de seu mundo. Seria o mundo onde dois fariam um, ou vários. Em nosso mundo não mais seriamos estrangeiros mas reis de nosso próprio castelo.
Levantei os olhos e percebi sua ausência. Sua ausência cortou minha carne como uma navalha gelada. Olhei e percebi que a ausência crescia. Sentei, como havia sentado um dia a margem do rio e assisti a ausência. Era como se ela temesse a água do rio, como se a ponte fosse ruir e ela se afogar. Tentei explicar que o rio era raso que ela poderia se salvar. Gritei que se ela fraquejasse eu poderia carrega-la nadando, mas ela não me ouvia. Desconfiava de meus caninos afiados como se eles fossem rasgar sua carne. Minhas mãos em garra faziam seus olhos refletirem medo e pavor.
Primeiro me escondi, depois mostrei minha nudez mais ainda para tentar lembrar-lhe como antes lhe eram querido. Cada vez mais distante do centro ela me olhava, ate que ficava na margem do rio mesmo que a ponte estivesse ali para acolhe-la.
Tomado de tristeza, abandono e dor eu esperava, no centro da ponte ainda a olhar para a margem onde ela se colocava. Chamava-a de volta e tentava pintar a despedaçada ponte, para que ela voltasse a ficar atraente.
Eu sabia que não poderia voltar ao meu mundo. Eu tinha a mesma oferta que ela, devolver meu passaporte e em troca voltar a ser cidadão. Mas eu sabia que não cabia mais em minha cidadania. Ambos os reis foram claros: para voltar, teríamos de voltar ocmo éramos, nada de importar novos hábitos. O reino fora sempre deste jeito e não tinha interesse em mudança. Eu olhava com pesar para minha margem antiga, sabia que não podia voltar e muito menos o queria.
Até que ela voltou: apareceu a sua margem e meu coração se encheu de esperanças. Cheguei mais perto e vi que suas mãos de princesa carregavam o machado do carrasco. A principio fiquei aliviado quando soube que a lamina não vinha cortar me a cabeça. Depois preferi que tivesse sido quando soube que aquela lamina seria o algoz de nossa ponte. Ela havia vindo destruir o altar que eu havia erguido para nosso amor. Seus olhos eram ódio, e eu quase não a reconhecia. Ela me fez uma oferta: atravessar a ponte antes que ela a destruísse. Deixar minhas roupas imundas na ponte e para que fossem queimadas.  Eu não podia, procurei em seu olhar o reconhecimento das diferenças que ela amou. Eu era aquelas botas sujas de viceras, e a roupa estava colada em minha pele.
Fria como a lamina de seu machado ela começou a castigar a ponte. Cortou cada pedaço, como se a mínima ligação pudesse infectar seu mundo de ninfa com a podridão que emanava do meu mundo e de meus poros.
Eu ali fiquei sentado vendo-a destruir e partir sem olhar para traz. Vi que estava sozinho, abandonado e ali onde antes tinha dois, que prometiam ser mais, nada mais estava do que minha solitária existência. Dei um passo em direção onde um dia foi minha casa, mas parei:  sabia que não pertencia mais.

Ainda na ponte fiquei  fiquei sentado. Abandonado, traído, negligenciado eu me sentia orgulhoso de não esquecer quem eu era, e de querer ser alguém melhor. Alguem que enfrenta o desconhecido, anseia pelo futuro, bebe do novo sem esquecer do velho. Eu havia topado abrir mao do eu pelo nós, mas jamais do eu para ser dois dela. Fiquei ali sentado, esperando a ponte ruir e o rio me engolir.

A Pedra

Eu sou uma pedra. Uma destas pedras ordinarias, cinzentas que voce já viu tantas que nem percebe mais. Quem sabe ate chutou algumas delas. Tenho um tamanho médio, um pouco maior que um punho cerrado. Meu formato não poderia ser mais comum, arrendondado pela ação do tempo e a erosão. Há muito estou no mesmo lugar, talvez tenha estado sempre ali, no centro de um pequeno córrego, que me banha por ambos os lados e por pouco não me submerge.
Ela é uma corrente, a força que movimenta as águas. Ela é a senhora do movimento que engloba minha existência neste momento. Ela é forte, mais intensa do que as forcas que conheci antes. Sua pressão não é agressiva e em sobressaltos, mas sutil e continua como de quem sabe para onde vai.
O movimento de suas águas produz o mais belo dos sons. Como se uma orquestra de gotas a chacoalhar  pudesse cantar como pássaros, uma musica suave e delicada. Como se pássaros e sereias do fundo das águas brindassem sua existência.
Não sei de onde ela vem, meus olhos não alcançam sua nascente ou desvios em seu curso. Tambem não sei quando chegou, pois quando percebi sua presença já envolvia meu ser por completo, como se ela sempre estivesse estado ali.
Quando percebi sua presença olhei para mim mesmo, e vi que estava diferente. Seu movimento já começava a alterar a forma do meu ser. Alem do meu ser sua presença alterava o meu universo, e pude perceber que a água estava prestes a me deixar totalmente submerso. Tive de lutar, agarrado nas raízes das plantas que me foram eternas protetoras.
Ali eu já sabia que a não teria forcas para contar a magnitude desta corrente, e que minha luta seria em vão. Contra minha vontade meu corpo já se inclinava como a obedecer a ordem que vinha através das águas. A forca desta corrente foi mais forte do que eu conhecia. Pouco-a-pouco ela ia me tirando da posição cômoda onde eu repousava por toda a eternidade de minha memória, mudando minha relação com meu mundo e como a tentar me tirar do meu chão.
Ainda luto bravamente com medo do desconhecido, tentando não autorizar que esta forca agradável e desconhecida me atire no desconhecido. Tenho a ultima aresta do meu ser tocando o chão, e me agarro a ele. O cântico do fluir das águas fica mais alto, ainda tocando o chão sou tomado de uma sensação de medo e liberdade, de quem esta prester a mergulhar no infinito.
Amo a sensação de estar envolvido por ela. Todas as partes do meu ser são tocadas por ela, e seu toque gelado é a definição do prazer.  As águas geladas relam em minha pele calejada, e este atrito de corpos produz um quase calor que ilumina as profundezas e esquenta meu ser inanimado. Como se nesse calor ela reconhecesse que ao me abraçar todo meu corpo, estou dentro dela por inteiro.
Tenho medo. Aonde me levará esta corrente? Meus movimentos e destino já não me pertencem, mas a soberana que comanda as águas. A corrente não muda de fluxo e jamais poderei voltar ao meu local de origem. Ao aceitar ser arrastado, entregarei me em suas mãos. Como poderia romper com as plantas e raízes que me protegeram sempre?! Trocar meu silencio por navegar nestas águas desconhecidas de tamanha forca? Como posso me atirar nestes braços que me puxavam sem ao menos perguntar seu eu queria seguir o seu caminho. Como posso estar em paz, sendo carregado por uma correnteza, que esta fadada ao destino de todas elas: terminar no infinito mar.
Como poderia eu, ordinária rocha desafiar o oceano?
Pensei em represa-la, atirar me contra irmãs rochas para que com elas pudéssemos dominar a ânsia de seus sentimentos. Seu eu a tivesse sob controle poderia viver a eternidade imerso em suas águas, então calmas e acolhedoras. Mas quanta petulância desta ordinária rocha pensar poder conter uma forca como esta. As lendas falam em rochas tão ousadas, e existem apenas dois destinos: ou matam a correnteza amada por lhe tirar o seu brilho, ou são esmirilhadas e espelidas por ousar tentar conter algo indomável. Um não pode fugir de sua natureza.
Eu que era feliz na calmaria de minhas águas agora sei que não posso voltar. As sensações que conheci jamais me deixarão sorrir sem elas. “Afortunados são os ignorantes” eu gostaria de citar, mas seria hipocrisia dizer que não gostaria de ter conhecido o mais belo do belo.
Entao em um lampejo de coragem, fujo de minha natureza de rocha e facilitado pelo impuxo de meu desejo exerço um movimento voluntario.Me desprendo do meu chão eterno e flutuou em suas águas, como a voar carregado por borboletas e pássaros verdes. A sensação é indescritível, e o cântico fica mais audível conforme tomo velocidade. Me sinto parte dos movimentos dela, como se fosse parte do ser que me carrega e me envolve.
La em baixo posso ver minhas irmãs calcarias a me fitar como o horror e o desprezo reservado aos loucos. Lhes devolvo o sorriso dos transgressores, cronopios por essência.
Meu sorriso então torno a minha senhora corrente, e ela canta de volta especialmente para mim.
Em suas águas vejo o reflexo de minha alegria, mas tambem vejo medo. Temo que minha amada siga seu destino, encontrando o senhor mar, ou mudando seu rumo. Fadando esta relez rocha a viver so na escura e gélida profundeza do oceano.


12 meses

É  estranho pensar que as flores voltarão a desabrochar , que este mundo possa ser novamente perfumado e colorido. Como poderá haver vida em meio á tanta morte?
Os últimos meses congelaram minha alma e tudo que eu queria era esfriar sobre a mesa.
Como as arvores, antes sorri florido e hoje estou seco. Fomos abandonados pelas folhas que de nós nasceram, carregadas por um vento passageiro.
Pensar que pouco antes meu coração era quente como o sol que me banhava, e que eu sonhava com raízes naquelas terras férteis.

Em tanta morte não pode haver vida, então que meu corpo adube esta primavera por nascer, pois meu coração jamais voltara a florescer.