Se eu pudesse, será que te apagava? Me pergunto se apagaria
de minha existência todo traço de tua passagem. Esqueceria completamente teu
nome, meu sentimento e nossa vida.
Se te fizesse sumir
eu apagaria a dor da tua ausência, o sangue de tua traição, me livrando da faca
que atravessa minha garganta. A dor abandonaria meus ossos e eu poderia voltar
a andar.
Os cinco sentidos voltariam um a um, do mais sutil ao mais
denso, me devolvendo o perfume do ar, o toque de uma planta, o som dos
pássaros, a beleza das águas e o gosto da vida. Por ultimo sumiria o daltonismo
em que tu me deixaste, e eu voltaria a ver o arco-íris.
Mas será que a dor que sinto não é um preço pequeno a pagar
pela alegria que me lembro? O sentimento do momento presente passa em um
segundo, mas a marca de um sorriso profundo fica gravada para sempre. Será que
eu trocaria minhas ricas memórias pelo alivio da dor?
A dor era o lado escuro de uma lua cheia, que iluminou a
noite em que eu vivia. Apesar de não vê-la eu sabia que ela estava lá a me
espreitar, a se esconder todo dia sob a luz onipresente do Sol. Ela me assusta,
mas não me surpreende.
Sem a dor eu deixaria de ser quem eu sou. A dor faz parte da
pessoa que sou hoje, e tentar apaga-la seria negar minha própria existência.
Covardes seria se amasse o ontem e desejasse o amanha. Se sou o que sou, estou
no hoje com o ontem na cabeça e o amanha no olhar. E o meu hoje é dor.
Tua passagem mudou o que sou, e apagando a tua existência
apagaria as mudanças em mim, andando para trás em uma via de mao única. Teria de preencher o vazio das tuas memórias
com tecido adiposo que eu retiraria em abundancia de minhas memórias. Preenchimentos falsos para uma vida vazia é o
destino dos que fogem da dor.
Sou o que sou. Sou dor e sou lembrança de sorriso. Não te
apago, mas preencho os vazios que tu deixaste com lagrimas, e me afogo neste
oceano.
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