Um cego, caminhando na escuridão. Um dia me dei conta que não lembrava mais do
meu próprio rosto. Faziam tantos anos que não me via, que minha própria imagem
se desfez. Um vazio muito grande, e um senscao de abandono tomaram meu corpo.
Corri as mãos para meu rosto, mas elas estavam tão calejadas que não pude nem
senti-lo.
A dor me acordou. Minha consciência demorou mais que meu
corpo para se dar conta disto, de que uma era de trevas havia tomado meu tempo
e que agora ela cessava. Eu sabia que tinha de acordar daquele sonho onde
corria perigo, acordar antes que arma apontada para mim fosse disparada e eu
ficasse no sonho para sempre. Como no pior pesadelo eu gritava para acordar,
consciente de que aquela não era minha realidade.
Neste momento lembrei de um brilho. Um brilho intenso e
quente que senti uma vez. Lembrei de uma estrela que de tão perto que cheguei
me queimou. Corri a mao para a cicatriz que a queimadura deixou, e lembrei do
calor, e pude senti-lo percorrer meu corpo uma vez mais. Novamente eu era jovem
e ainda era dia. O lembrança do sorriso fez minha boca projeta-lo
involuntariamente, e aquela sensação de calor fez algo brilhar em mim. A forca
desta memória adormecida fez minha aura brilhar, e criar luz naquele breu que
cada vez fechava mais.
Eu estava no escuro, e nele vivi muito tempo. Como uma
marmota que se esconde, meus olhos se acostumaram ao breu, e botar a cabeça
para fora do meu mundo não so me cegava como assustava.
Neste labirinto tão simples a saída esta sinalizada para
todos sobre a porta, mas os cegos miram apenas os próprios pés, vendo nada alem
da sarjeta. Instintivamente corri meus olhos para o céu lembrando e lembrei da
estrela cadente riscando o céu. Como o grão de areia sonhei que poderia
alcançar a estrela, e corri, perseguindo seu riscado.
Eu corria com todas as forcas que tinha em meu corpo
cansado, mas a distancia entre nos apenas aumentava. Eu sabia que esta
distancia não iria diminuir, mas isto não me fazia parar de correr. Sonhava que
minha forca tornaria minhas pernas tão rápidas, que a energia cinética emanaria
um brilho que faria a estrela se ver em mim.
Eu sabia que la de cima a estrela não me via. Sabia que a
forca de minhas pernas não empurraria a terra com tanta forca a ponto de algum
dia alcança-la, mas corria com cada vez mais forca. Quando nem meus olhos a
alcançavam segui correndo atrás dela, como se pudesse alcacala.
Calculista por treinamento, sempre sube que não a
alcançaria, mas nunca deixei de correr. Corri por mim, não por ela.
Na escuridão que eu me encontrava eu precisava encontrar um
guia, uma forca que me tirasse de la. Um desejo que me fizesse sentir-me vivo
para querer acordar. A memória do teu corpo foi a lembrança que escolhi para me
tirar do inferno. Me agarrei com tanta forca a esta memória que projetei a tua
imagem no céu, e a persegui como uma estrela guia. A luz que fez de ti uma
estrela cadente foi minha mente projetando iluminação para o caminho que eu
tinha de seguir para acordar de meu próprio pesadelo.
Não te inventei, apenas te resgatei do fundo de uma memória.
Perdao se de alguma forma te usei, mas saiba que te homenagiei.
Como um vampiro meu espelho não tinha mais reflexo. Eu vi
minhas fotos e eu não estava la. Eu não sabia mais a minha imagem. Como um
monstro cubista eu tinha mil ângulos, e imagens, sem nenhuma verdadeira.
No escuro nada se vê, então como ver o próprio reflexo na
superfice que mais engana? Dizem que o amor é verse refletido em outra pele. O porblema é que quando não se reconhece a
própria imagem fica impossível encherga-la em um corpo estrangeiro.
Quando eu vi que não tinha imagem, e tive de escolhe-la,
peguei a mais bonita que eu conhecia: a tua. Se apaixonar-se é se ver refletido
em outra pele, decidi apaixonar-me por ti, pois isto faria de mim tão lindo
quanto tu. Decidi que tu eras eu, para que eu pudesse ser tu.
Quando nem meus olhos alçavam a tua luz mais, tive medo de
parar de correr. Tive medo de que a luz que brilhava a minha volta, esta aura
quente, se apagasse quando eu parasse, e as trevas me abraçassem novamente.
Tive certeza de que a luz que me iluminava vinha do teu corpo, então segui
correndo.
Milenios depois que tua luz não estava em meu campo de visão
mais, corri mais devagar. Olhei para baixo e pude ver meu corpo novamente.
Olhei com mais atenção e pude perceber que a luz que o iluminava era um tom
violáceo que eu jamais tinha visto. O tom com sopros de dourado era
extremamente familiar, apesar de não lembrar dele. Primeiro notei que a cor não
se parecia em nada com teu brilho. Pensei ser o reflexo dele, maculado por
minha superfice imunda. Olhei com mais profundeza e vi que este reflexo de nada
tinha de sujo. Minha pele nua sob ele, reluzia e não estava encardida.
Enquanto prestava atenção em minha própria luz, meus passos
perderam intesidade e sem me dar conta parei de correr. Oberservei minhas mãos
e pés, dos quais saiam faxos de luz da extremidade de cada dedo. O tempo deixou
de existir e me dei conta que havia parado de correr. Meus olhos correram o
céu, procurando teu riscado para seguir, mesmo que jamais fosse te alcançar,
mas nem teu rastro mais estava ali.
Olhei a minha volta e era dia. Um lindo relvado se estendia
sob meus pés e perto dali um rio cantava. Meu corpo não brilhava mais e o
brilho havia se espalhado e floresta brilhava a minha volta.
Olhei para o céu, e agradeci aquela estrela que imaginei
correr os céus, para que eu pudesse me guiar para fora de minha própria
escuridão, do inferno que construi para mim mesmo, e que so eu poderia me
tirar.
Eu estava tao perdido que precisei te amar para me salvar.
No fundo do posso onde eu estava tudo era escuridão, e eu precisei seguir uma
estrela cadente para ter forca de correr de la.
Mas nunca esqueça, que mesmo tendo inventado o amor que
senti, foi a lembrança do teu calor que me deu forca para criar e correr. Tu me
salvou, mesmo tendo morrido muito antes de eu te enterrar.
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