Postagens populares

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Minha Casa

Quando eu era pequeno, muito pequeno, me mostraram a foto de uma casa, e disseram que ela era linda. Eu aprendi que aquilo era linda, e que aquele era o maior desejo que se podia ter, e a desejei.
Um dia eu abri meus olhos
Séculos haviam se passado enquanto eu dormia, mas eu lembrava de tudo. Eu  havia aprendido a construir e decidido que para mim eu iria construir a mais bonita das casa.
A casa era perfeita. Toda de pedra, forte, ampla, robusta, alta, uma verdadeira fortaleza. E delicada! Após o amplo pe direito triplo vinha um lindo telhado com madeira e vigas aparentes segurando as mais belas telhas, e sobre toda a sala um grande telhado de vidro. A decoração era impecável, os mais lindos moveis, as mais lindas flores, limpa, perfeita. E então pensei o quanto deveriam ter sido séculos felizes...
Comecei a andar pela casa e vi o mais desejado dos bolos, o que curaria qualquer destempero. De tão lindo que resolvi morde-lo, ao levar o tão maravilhoso bolo a boca senti gosto de cinzas. Mas como poderia, o mais lindo dos bolos, o mais desejado dos bolos ter tanto desabor? Olhei de novo a minha volta para me certificar que eu estava acordado, então desesperado corri para o ramo das mais lindas flores que estavam no belíssimo vaso de cristal em cima da mesa e aspirei seu perfume: nada, elas não tinham cheiro de nada. Apertei-as contra o meu rosto, para senti-las despedaçarem-se conta minha carne e saber que elas estavam vivas, mas então entendi: eram flores de plástico.
Assustado deixei meu corpo cair sobre o sofá: uma peca linda, convidativo só de olhar. Tão lindo que não dava vontade de sentar de tão perfeito. Mas sentei, e quando deixei meu corpo escorrer, me lembrei mais. Lembrei dos convidados, das festas e das pessoas.
A casa estava sempre cheia, copos tilintando em brindes e gargalhadas se misturavam a musica que nunca cessava. Lembrei dos sorrisos fáceis, dos beijos e das garrafas de champagne. Lembrei do som da minha gargalhada ecoando nas impecáveis paredes de pedra nuas. Então, ainda no sofá, me preparei para me alegrar com esta memória, mas não veio esta sensação, e sim outra lembrança.
Lembrei de logo que a casa ficou pronta, do dia que vim para ca. A mudança estava feita, tudo estava em seu devido lugar, as flores já estavam ali, as fotos nos porta retratos, o perfume colocado e a casa me esperando, a mudança já estava feita. Me lembro de sentar neste mesmo sofá, me lembro ate o que eu vestia, impecável. Foi ai que aquilo aconteceu.
Do canto da casa, por entre aquelas paredes tão solidas, crescia uma planta. Fiquei chocado como aquela maldita planta havia se intrometido na casa dos meus sonhos. Como não havia sido prevista ou controlada a planta?Sem demoras abri o local aonde as facas deveriam estar, e claro que la estava, peguei a mais afiada das adagas e cortei a maldita.
As festas vieram, os convidados, as convidadas e um dia durante a maior das festas, conversando com a maior das convidadas eu a vi novamente: a maldita planta. Indignado, envergonhado não sabia o que fazer me desculpem com meus convidados, que educados diziam que não viam nada, e como disfarçavam bem, eu poderia jurar que eles realmente não a viam. Mas eu via, e eu a odiava. Minha festa acabou naquele momento, na primeira oportunidade a destrui.Com fogo e ferro a ataquei, derrubei a parede por onde ela entrava, fogo no solo onde nascia, o que era aquela maldita planta que ousava destruir a perfeição da casa que construi para o meu sonho?! Maldita! Ela nunca mais iria voltar.Jamais!
Mas eu estava errado. Em uma semana eu a vi novamente, mas o que tomou conta de mim não foi o ódio, foi outra coisa, mas não soube dizer o que. E eu não a ataquei, decidi que eu não havia a visto. Ela não estava ali, aquilo não era lugar de planta, porque ela estaria ali?
Na festa seguinte alguns convidados que antes não viam a planta me avisaram que crescia uma nojenta planta na sala da casa,eu prontamente os expulsei, pois apenas loucos poderiam ver plantas onde não havia nada.
Quando não haviam convidados eu observava a planta com o canto do meu olho, tinha medo dela. Não sabia que planta era aquela, do que ela era capaz, o que aquela erva daninha poderia fazer com a estrutura do meu palácio.
Um dia, muito tarde da noite, algo me atacava o peito. Fechei todas as cortinas da casa, mesmo que fosse escuro, e fui ate o canto da sala. La estava ela, muito maior que quando havia a visto da ultima vez, não conseguia olhar fixo para ela, mas ela estava ali. Corri para cozinha procurando um regador para ajudá-la a crescer, pois precisava ver que planta era aquela, mas nesta casa não havia com que se regar. Desesperado, baixei minhas calcas e reguei a tal planta. Lembrei então da sensação quente que percorreu meu corpo a partir do regador, e lembrei-me do que eu fiz então.
Neste dia eu decidi aumentar a casa: construiria outra casa, subterrânea, embaixo da grande fortaleza. Iria encontrar a raiz de todas as plantas. No meio da sala abri um calabouço: desta vez não utilizei minhas equipes e assistentes, cavei sozinho. De minhas ventas brotava suor em gotas de sangue, e a dor de minhas mãos era uma sensação maravilhosa. Cavava durante a noite, escondia a terra nos bolsos para tirá-la pouco a pouco, assim os convidados não notariam a mudança. O grande alçapão no meio da sala eu não consegui cobrir, não havia coberta tão grande e não tive forcas de escondê-lo. Em todas as festas eu tinha medo que o vissem, mas eles passavam reto, não o viam. Eu não entendia como poderiam não se dar conta, estava abaixo de seus grandes narizes! Ate que eu vi que alguns deles passavam por cima do abismo, sem que por ele fossem sugados! Eles simplesmente caminhavam no vazio, presos por suas mentes que por acreditar que o chão era solido só mantinha na superfície.
À noite eu cavava cada vez com mais vontade. Cada camada de terra que saia era uma nova descoberta. Ate que meu porão teve espaço suficiente para eu estar dentro dele. Tive prazer em estar ali, senti um calor naquela terra úmida que eu sabia que já havia sentido, mas fazia tanto tempo. Aquela sensação foi tão boa que trouxe uma das cadeiras da área de serviço para o calabouço e ali fiquei. No outro dia trouxe um manto furado para servir de tapete, e todo dia eu cavava um pouco daquele lugar horrendo.
Em pouco tempo o buraco já era uma sala nojenta, úmida, com moveis pobres. Me esforcei para lembrar do cheiro. Me preparei para sentir náusea, afinal o lugar deveria ser fétido, mas o cheiro era algo inexplicável. Um cheiro quente e doce, apenas palavras não olfativas poderiam descrever aquele cheiro. Lembrei então o que houve com as paredes. Independente do quanto eu cavasse as paredes rapidamente eram tomadas pela planta que invadia a casa, entendi porque ela subia com tanta facilidade. A casa havia sido construída sem fundação, sem alicerce. Um grande aterro havia sido feito sobre o nascente desta planta. Eu sabia que toda nascente precisava de água, então continuei a cavar. Eu seguia cavando com medo. Sabia que a estava em baixo da casa, e tinha medo que se cavasse demais ela fosse desmoronar. Como eu poderia destruir aquela casa tão linda? Quantos não sonharam com aquela casa? Quanto eu não sonhei com aquela casa? Eu deveria estar louco. Eu pensava, mas eu cavava. Não era eu que cavava, mas minhas mãos, meus corpo. Tinha medo por meu porão também. Um lugar desamado que eu havia encontrado, e ali ficado, cavar era arriscá-lo também. E se eu o destruísse? Se ao ver o que tinha no fundo dele eu não o amasse mais? Mas eu cavava.
E eu lembrei o que aconteceu: água. Uma nascente linda, um poço da mais cristalina água. Eu lembrava dela, do gosto dela. Completamente nu mergulhei nela e ali fique um tempo, lembrando desta sensação, eu havia estado ali já, há muito tempo, e durante muito tempo, e que saudades eu tinha dela.
Foi então que ouvi barulho, os convidados chegavam e eu estava nu. Eu estava molhado, eu estava sujo. Em pânico eu corri, rezando pelo perdão de todos eles, mas quando eu cheguei la em cima, eles pareciam não notar. Sorriram para mim, me abraçavam, sem ver que eu estava nu e molhado, como se eu fosse um deles.
Eu estava em choque, havia entendido que era diferente, havia entendido que a planta havia vindo me buscar, que eu pertencia a ela, e nos pertencíamos a água. Olhei para os meus lindos convidados e seus rostos derretiam, suas peles se mostravam cheias de feridas e os dentes haviam caídos, eles que eram tão lindos. Olhei para a planta e ela estava olhando para mim. A linda planta estava gigantesca, corria por toda a sala exalando seu perfume quente e úmido.
Olhei de novo e vi que os convidados haviam ido embora, alguns assustados, outros apenas seguindo os que iam embora, e alguns eu havia expulsado. Então eu vi melhor, alguns seguiam ali. Estavam sentados, e brincavam com a planta. Eu não os havia visto, logo eles, que eram sempre os primeiros a chegar e os últimos a sair, a acariciavam e lhe chamavam pelo nome. Ouvi vozes então, e vi que alguns deles estavam na sala em baixo da sala, e que esta tinha a entrada cada vez maior. Olhei bem para eles e por seus sorrisos e mão calejada lembrou que tinha me ajudado a cavar, sem dizer muito, apenas sorrindo. Nos seus sorrisos vi que não haviam perdido os dentes. E sua pele reluzia linda contra o sol. Mas que sol era este? Um raio de sol entrava pelo amplo telhado de vidro e vim iluminar a nova sala, então eu olhei para cima e vi que a antiga sala já não existia mais. A entrada do antes calabouço havia crescido tanto que a sala de cima, desmoronou. Me preparei para chorar pela sala perfeita e sua mobília estonteante, engolidas agora, mas meu coração cheio de alegria não conseguia chorar.

Acordando do meu transe olhe em volta, e a casa não estava ali. Eu estava sentado na nova casa. A fortaleza sem alicerce havia desmoronado quase inteira. A nova casa não tinha paredes, e era cercada de muito verde, uma grande floresta da planta que nascia em meu coração de água. Olhei para o céu, e vi que agora sim, eu estava em casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário