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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Quando as Mascarás Caem

Nada mais triste que a decepção. Nada pior do que ver que você foi enganado. Que você enganou a si mesmo. Que se deixou enganar. Que quis se enganar.
Quando a mascara derrete, e o rosto lindo se transforma em uma escarra nasce a decepção. No mesmo ritmo que derrete o rosto antes angelical, derrete meu coração. O coração que antes era quente e de veludo, agora está frio e ressecado. Dentro dele o espaço antes preenchido pelo amor agora torna-se um infinito buraco negro.
O amor sai em forma de liquido a brotar dos meus olhos. A dor me escorre o rosto, antes estampado com um sorriso eterno.
O amor nos leva as alturas, nos faz voar pelo mundo. A decepção derrete nossas asas em pleno voo, e sorri ao nos ver cair. A dor da queda é maior que a dor do impacto. Os segundos de queda livre se multiplicam para sempre, e jamais chegaremos ao chão. Não existe o misericordioso impacto para terminar o medo da queda.
Enquanto despenco, deixo lagrimas pelo caminho. Na solidão do ar ninguém pode ouvir meus gritos, e então eu urro. Do fundo de minha alma emito o mais horrendo dos sons, o grito de um animal ao ser abatido.
A decepção derreteu meu coração como um acido e agora permeia pelo meu corpo, correndo cada parte como a querer acabar comigo. Sinto a dor em minha alma de quem foi traído.
A pergunta que não tem resposta não poderá deixar de ser feita: “Por quê?”.
Eu que fui só amor, eu que fui só carinho, eu que fui só cuidado. Eu merecia um espelho.
Fui enganado. Fui pego em uma armadilha como um animal, enjaulado como um animal e maltratado como um animal.
Me convidaram a correr no campo de primavera, me indicando o caminho e eu fui. A grama verde se abriu sob meus pés e me vi no fundo de um grande buraco. Machucado olhei para cima, a espera de quem lá me havia levado, a espera de uma corda, a espera do amor.
A encobrir a longínqua luz que vinha da superfície vi o rosto tão amado. Eu gritava por socorro e apenas era contemplado por aqueles olhos tão familiares. O silencio era ensurdecedor. Me perguntei se eu poderia ser visto, só poderia ser esta a explicação para não ser ajudado. Então eu vi o sorriso. A maldade, a loucura, o desdém, todos disfarçados atrás do amor. Amor sem limite, que engole, que devora, que instrumentaliza, que rasga a alma e a carne.
Quando eu vi o rosto ser trocado pelas costas, eu entendi que estava só. Entendi que minha queda não era fruto do acaso. Eu havia sido atraído, empurrado, aprisionado, dominado. Agora eu estava impotente, abandonado, sem saída.
Sentado no fundo do meu poço eu tinha as roupas rasgadas, o rosto molhado de lagrimas e o corpo empapado de sangue. Minha alma chorava e meu coração sangrava. Senti uma sensação nova, como se expelisse algo por todos os poros de meu corpo. Pensei que a vida me abandonava, mas era o amor que me deixava.
Senti meu coração secar e o veludo se tornar uma couraça. Envelheci sentado no fundo de meu poço. Fechei os olhos e esqueci.


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