Nada mais triste que a decepção. Nada pior do que ver que você
foi enganado. Que você enganou a si mesmo. Que se deixou enganar. Que quis se
enganar.
Quando a mascara derrete, e o rosto lindo se transforma em uma
escarra nasce a decepção. No mesmo ritmo que derrete o rosto antes angelical,
derrete meu coração. O coração que antes era quente e de veludo, agora está
frio e ressecado. Dentro dele o espaço antes preenchido pelo amor agora
torna-se um infinito buraco negro.
O amor sai em forma de liquido a brotar dos meus olhos. A
dor me escorre o rosto, antes estampado com um sorriso eterno.
O amor nos leva as alturas, nos faz voar pelo mundo. A
decepção derrete nossas asas em pleno voo, e sorri ao nos ver cair. A dor da
queda é maior que a dor do impacto. Os segundos de queda livre se multiplicam
para sempre, e jamais chegaremos ao chão. Não existe o misericordioso impacto
para terminar o medo da queda.
Enquanto despenco, deixo lagrimas pelo caminho. Na solidão
do ar ninguém pode ouvir meus gritos, e então eu urro. Do fundo de minha alma
emito o mais horrendo dos sons, o grito de um animal ao ser abatido.
A decepção derreteu meu coração como um acido e agora
permeia pelo meu corpo, correndo cada parte como a querer acabar comigo. Sinto
a dor em minha alma de quem foi traído.
A pergunta que não tem resposta não poderá deixar de ser
feita: “Por quê?”.
Eu que fui só amor, eu que fui só carinho, eu que fui só
cuidado. Eu merecia um espelho.
Fui enganado. Fui pego em uma armadilha como um animal,
enjaulado como um animal e maltratado como um animal.
Me convidaram a correr no campo de primavera, me indicando o
caminho e eu fui. A grama verde se abriu sob meus pés e me vi no fundo de um
grande buraco. Machucado olhei para cima, a espera de quem lá me havia levado,
a espera de uma corda, a espera do amor.
A encobrir a longínqua luz que vinha da superfície vi o
rosto tão amado. Eu gritava por socorro e apenas era contemplado por aqueles
olhos tão familiares. O silencio era ensurdecedor. Me perguntei se eu poderia
ser visto, só poderia ser esta a explicação para não ser ajudado. Então eu vi o
sorriso. A maldade, a loucura, o desdém, todos disfarçados atrás do amor. Amor
sem limite, que engole, que devora, que instrumentaliza, que rasga a alma e a
carne.
Quando eu vi o rosto ser trocado pelas costas, eu entendi
que estava só. Entendi que minha queda não era fruto do acaso. Eu havia sido
atraído, empurrado, aprisionado, dominado. Agora eu estava impotente,
abandonado, sem saída.
Sentado no fundo do meu poço eu tinha as roupas rasgadas, o
rosto molhado de lagrimas e o corpo empapado de sangue. Minha alma chorava e
meu coração sangrava. Senti uma sensação nova, como se expelisse algo por todos
os poros de meu corpo. Pensei que a vida me abandonava, mas era o amor que me
deixava.
Senti meu coração secar e o veludo se tornar uma couraça.
Envelheci sentado no fundo de meu poço. Fechei os olhos e esqueci.
Nenhum comentário:
Postar um comentário