Acho que já nasci diferente
Deve ter sido quando eu estava na barriga da minha mãe
Talvez ela tenha engolido um ovo sem perceber
Pode ter sido na comida
Pode ter sido abrindo a boca para falar
Provavelmente ela nem notou.
Claro que não estou falando de um ovo qualquer.
Nem sei bem de que ovo estou falando
Talvez seja um ovo cósmico
O que eu sei é que este ovo veio parar dentro de mim
Quando eu nasci, ou logo depois, o ovo já havia se tornado
vida.
Do ovo saíram alguns passarinhos e passaram a viver comigo
Eu não sei do que eles se alimentavam ou o que faziam, mas
eu podia sentir sua presença.
Comecei sentindo-os no meu estômago.
Era como se voassem em círculos o fazendo revirar.
O vento do bater de suas asas fazia gelar minha barriga
As vezes o vento era tão forte que me dava um frio na
espinha
O voo circular me deixava com o estomago embrulhado
As vezes o voo levava a fome para longe
As vezes a ausência dele fazia da fome insaciável
Eu tentava explicar porque comia, mas ninguém entendia
Gostavam muito de fazer isto em minha cabeça também
embaralhando meus pensamentos.
Neste emaranhado causado pelo bater das asas dos meus
passarinhos desordenava meu pensar
Na verdade, o vento das asas dos pássaros rearranjava meus
pensamentos em uma desordem cheia de sentido.
Eu tentava contar para todos o que eu estava pensando, mas
eles não entendiam a ordem que me faltava.
Quando eles estavam cansados de voar, iam pousar em meu
coração.
Se aninhavam sentados com as asas acomodadas ao longo do
corpo.
Podia sentir o toque suave de sua penugem
O calor que produzia seu corpo esquentava meu coração
Era como se eles quisessem chocar de dentro dele uma nova
vida.
Meu coração passou a existir em uma temperatura morna e agradável
Claro que as vezes eles se mexiam demais sacudindo o coração
As vezes eles levantavam rápido e com suas patas afiadas sangravam
o pobre coração
O pior é quando eles acordavam e saiam a voar por dentro de
mim
O coração sentia falta do calor de seu corpo e esfriava.
Outras vezes com tanto medo de esfriar ele esquentava
demais.
As pessoas também não entendiam como meu coração podia
funcionar tão diferente do delas.
E minhas mãos eram suas.
Eles se dividiam metade em cada braço
Eu relaxava por completo e deixava que eles me levassem.
Voavam em um só ritmo fazendo meus braços baterem como asas
E assim me faziam voar.
Das minhas mãos saiam as formas mais estranhas, e ninguém
conseguia entender.
Um dia descobri que as pessoas não nascem com pássaros
dentro delas.
Que eles não são parte do pacote
Que eles não são sangue, carne, osso e tripa
E fiquei com vergonha
Entendi que os pássaros não são funcionais
Que o canto dos pássaros não comunica nada
Que os pássaros passam pelo mundo sem deixar nada
Deixam apenas mais pássaros e ninhos vazios
Cagam o mundo e os chapéus apressados
Pedi que batessem na minha cabeça ate que os pássaros
parassem de voar
Pedi que pisoteassem meu coração até que ali os pássaros não
mais se aninhassem
Enchi meu estomago do liquido mais venenoso para afogar os
malditos
Cerrei meus punhos para mostrar aos malditos que eu me podia
comandar
Bradei a eles que me deixassem ser normal
As vezes eles passavam dias inteiros a voar
Se batiam contra minhas paredes como a querer rasgar minha
pele
Imploravam com raiva pela janela que viam o mundo
Pela portinhola que os deixava livres para ir, mesmo que
nunca fosse,
Pediam para serem pássaros
Depois se calavam por dias que pareciam semanas que se
tornavam meses que pareciam anos
Seu silencio era ensurdecedor
E sua quietude me emudecia
Eu me enchia de uma esperança pobre
Ostentava em meu rosto o dos vencedores deste mundo de
derrotados
Mas em alguns dias como se clamados pela lua eles acordavam
Cantavam sem parar
E giravam e giravam e giravam
Causando um terremoto no castelo de cartas que eu chamava de
vida
Outras vezes achava que eles estavam mortos
Tentava espiar para dentro e ver se eles ainda ali estavam
Sempre achei que tinha o poder de acordá-los
Que sua vida tinha um botão ON/OFF
Sonhava em instalar um botão de volume, para controlar sua
intensidade
Então eles sumiram
Dois séculos se passaram sem que fosse ouvido em minha terra
o piar dos pássaros
Fui tomado de um
vazio como se meu interior fosse vácuo
Me tornei uma caixa vazia
Sentado de cabeça
baixa e deixei que tudo que me afligia aflorasse
Meus olhos responderam e deixei que o rio da minha dor corresse meu
rosto
Abri a boca para sentir o gosto da minha alma
E senti o gosto do mar
Embasbacado abri a boca e então ouvi o canto mais lindo
Os pássaros todos juntos cantavam de dentro de mim a mais
linda melodia
Juntos retomaram seu voo em um só movimento
Todos voavam em uma dança majestosa
Entendi que eles não me pertenciam, mas eu pertencia a eles
Com um punhal de pedra rasguei minha carne para que eles
pudessem seguir o seu destino
Meu corpo não mais seria a sua gaiola
Eles seriam livres
E eu me libertava com eles
Descobri que meus pássaros eram 3
Saíram, batendo as asas com forca a gargalhar
Me despedi quando os vi voarem ate o céu e sumirem no sol
Sorri quando os vi voltarem na mesma velocidade
Traziam em suas penas o calor do sol para aquecer meu rosto
molhado
Voaram a minha volta circulando cada membro de meu corpo
Quando haviam me abençoado por inteiro eles pararam
Sentaram em meus ombros e se botaram a cantar
Abri meus olhos para não mais fechar
A boca se abriu para se juntar ao canto dos pássaros
Eles levantaram voo e entraram pela minha garganta
Ficaram voando e cantando dentro de mim
A boca ficará aberta para sempre
Os olhos irão piscar, mas jamais se cerrar
As mãos são suas para escrever o balet de seus voos
A carne rasgada jamais irá cicatrizar
Uma porta para que eles possam ganhar o mundo
Uma porta para que eles possam voltar
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