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sábado, 8 de novembro de 2014

O Pássaro Caído



Um dia estava caminhando pela rua quando ouvi o cantar de um pássaro. Ergui os olhos a procura do cantor mas não o vi. Ele silenciou e fiquei a esperar até que ouvi novamente seu canto. Fechei os olhos e percebi que a melodia era triste e quase sem força,
Segui olhando a minha volta a procurar da onde vinha o canto tão lindo, até que o encontrei. Era um pássaro caído, e pude vê-lo encolhido a meus pés.
Não sabia se devia tocá-lo ou não, afinal eu não entendia nada de pássaros, então apenas me agachei perto dele e fiquei a observá-lo. Ele me fitava com seus olhos negros e redondos, até que roçou a cabeça em mim, como a me convidar.
Com cuidado tomei-o nas mãos em concha, onde ele se aninhou. Seu corpo tremia assustado, mas sua temperatura era morna. Em poucos segundos seus olhos voltaram a me fitar como se quisesse me dizer alguma coisa.
Pedi ao pássaro que me contasse sua historia e ele prontamente iniciou um canto suave.
Sua melodia cantava a vida de um pássaro que havia viajado muito. Voava a muitos anos e já não podia se lembrar quando esta jornada havia começado. Ele tinha a lembrança de outros pássaros como ele voando a seu lado, mas isto fazia muito tempo.
Por mais que suas pelagens se assemelhassem suas asas batiam em ritmos diferentes e os ventos do mundo fizeram com que ele fosse voar sozinho.Sem saber para onde ir este pássaro solitário passou a voar o mundo procurando seu ninho perdido. Ele sabia que o ninho estava em algum lugar do mundo, apenas não conseguia se lembrar aonde.
Durante estes longos anos por algumas vezes ele pensou que o havia voltado para casa. Havia visto o ninho, exatamente como ele se lembrava. Quando isto acontecia ele parava de bater suas asas e deixava seu corpo planar no ar, sentindo o carinho do vento em suas asas. Suavemente pousava próxima a morada que tanto havia buscado sentido um arrepio de relaxamento percorrer todo seu pequeno corpo.
As vezes nem dava tempo de tocar o ninho e outro pássaro o enxotava, fazendo o voltar para o céu aberto. Outras vezes chegava a se aninhar, antes de ser atacado por um pássaro que não sabia da onde havia vindo. Uma vez ou outra chegou a ter a certeza que jamais sairia daquele ninho, até que sem explicação se encontrava-se novamente voando a procura de casa.
Perguntei porque ele estava machucado, porque eu o encontrei no chão, quando o lugar de um pássaro é no céu.
Ele me pediu calma e voltou a cantar.
Havia muito que ele não encontrava seu destino, e o cansaço de procurar era tão grande que ele não acreditava mais que pudesse existir descanso para suas asas. Sem esperanças ele havia decidido mergulhar na escuridão da noite e voou em direção a lua.
Mas mesmo no breu da noite existe a luz do sol a refletir, e seu brilho prateado banhou a copa de uma arvore. Ali ele pode ver outro pássaro a descansar. Acanhado posou ao seu lado e viu que ali não havia ninho, mas que a copa era confortável. Ouviu então do novo companheiro que se ficassem bem próximos seus corpos seriam um o ninho do outro, para aquecer e repousar, e assim estariam protegidos. Então ele finalmente descansou com os olhos fechados.
Interrompi-o novamente dizendo que este descanso não explicava nosso encontro.
Paciente ele novamente me pediu calma e retomou sua ária.
A noite era fria, mas seu corpo estava aquecido por seu pequeno coração a bater, então depois de muitos anos ele adormeceu, e se quer sabia por quanto tempo. O que ele sabia era como acordou: sentiu a sensação de que caia e abriu rapidamente os olhos. Viu o pássaro companheiro sorrir enquanto ele caia e entendeu o que se passava. O inverno havia acabado e agora o calor de seu corpo nada mais era que um estorvo para o antes fiel companheiro. Ele não sabia dizer se havia caído ou sido empurrado, mas de que importava?! Tudo que ele sentia era a dor de não ter o seu companheiro aparando sua queda.
Eu não agüentava aquela historia triste e pedi para ele que voasse, afinal pássaros não caem.
Desta vez ele não me interpelou, e apenas seguiu cantando sua historia.
Era como se a dor da traição houvesse sugado toda sua força. Suas asas não se moveram, e tudo que ele sentia era ser engolido pelo vácuo da queda.De repente, com um estampido seco seu corpo chocou-se com chão e ele pensou que fosse o fim. Suas asas se retorceram e seu corpo não se movia, então ainda acordado ele esperou que viessem buscá-lo.
Mas para sua surpresa eu apareci com meus passos largos. Ele sabia o que aquelas mãos grandes significavam e estava pronto para encarar seu destino. Mas para sua surpresa o golpe de misericórdia não veio, e sim um toque suave, e depois de muitos anos ele teve vontade de cantar. Entao ele silenciou, quase sorrindo.
Ao fim de sua historia eu tinha os olhos marejados e o coração aquecido. Ainda com ele em minhas mãos trouxe-o para junto de mim e o beijei. Olhando em seus olhos prometi entao que ele jamais voltaria a cair, que minhas maos estariam sempre ali a ampara-lo. Senti seu corpo todo relaxar porque finalmente ele havia encontrado em meu peito o ninho que tanto buscava.

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