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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Flor de Saturno

“ Sempre houvera no planeta do pequeno príncipe flores muito simples, ornadas de uma fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manha na relva, e já a tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido se sabe da onde, e o principezinho vigiaria de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou a preparar uma flor. O principezinho, que assistia a instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa “
(Trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry)



                                      


Saturno, o Senhor do tempo, demora 29,4 anos para completar sua volta em torno do Sol, e estar em relação a Terra exatamente na mesma posição. Quase 30 anos para que faça a exata sombra sobre mim que fizestes no dia que nasci.
E saturno completa sua primeira volta a me observar e na solenoide da vida me encontras no mesmo ponto mas em altura diferente. Tantas cicatrizes, caminhos percorridos, sorrisos, gargalhadas e devaneios até que voltes a me ver como me vistes uma vez.
A aproximação da posição exata do astro agita minha maré e meu mundo se revolta. O que antes era sol torna-se tormenta, sacudindo minhas águas com raiva.
Sozinho no convés de meu navio me ato a posição de timoneiro, com os retalhos das velas que um dia comandei. Ululo, desafiando o deus astro com meus dentes cerrados. A atitude guerreira esconde o coração de menino amedrontado, e por dentro choro.
O Tempo sem piedade me castiga, me lançando de meu mundo, me deixando abandonado a deriva e entendendo a realidade, de que, nunca fui senhor de meu destino.
Semi acordado flutuo como merda, com a certeza de que não há um porto seguro a me esperar ao final de minha jornada. Desesperado olho para o céu, a procurar o deus astro, rogando que me leve consigo. Mas meu momento com saturno já passou e tudo que vejo é caos. Meus olhos se fecham e me abandono.
Abro meus olhos quando meus pés tocam o chão e não há mais água a minha volta. Estou só e nu, com os pés plantados na areia de uma praia. Olho em volto e vejo que nada tenho de meu, alem das marcas da luta.
Sinto a luz do sol tocar minha pele e reajo como vampiro, sentindo ardência em minhas entranhas e minha pele a derreter. Ergo meus olhos para ver o Senhor do tempo pela ultima vez nos próximos 30 anos, e antes que ele desapareça vejo que de seu rastro cai um ponto luminoso.
Me ergo com o que me resta de força e corro para que aquele fagulha de luz encontre meu ser. Mas minhas pernas estão cansadas e em meu cambaleio quase embriagado fracasso na perseguição da luz, e vejo que o lampejo de vida acabou-se no chão
Extenuado em desespero me ajoelho, enfio meu rosto na mãe Terra, implorando que o chão me engula. Grito com a boca cheia de areia, um berro grotesco que ninguém pode ouvir. Levanto o olhar e vejo que onde o Tempo encontrou a Terra se apresenta um pequeno botão de flor, semeada por Chronos e nutrida por Gaia.
Tomo a flor em minhas mãos com cuidado, para lhe sentir por inteira. Seu cheiro é doce e seu toque aveludado. Sua temperatura é morna, e levo-a à meus lábios. Sinto-a como se fosse humana e que dela emana vida. Então me percebo ascendendo por dentro, e assim fazendo virar minha ampulheta para que se inciasse a nova espera por Saturno


"Amadurecendo no Retorno de Saturno"
http://www.personare.com.br/amadurecendo-no-retorno-de-saturno-m138


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